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março 01, 2007
carlos gomes, 222
Dá para medir a ruindade de filmes históricos pela quantidade de escatologia que o diretor usa para mostrar reis como palhaços ególatras e artistas como palhaços bajuladores. Quando é o século XVII, então - o século do sublime, do grand style, isso eles não suportam. Em The Libertine, gentlemen emporcalhando as botas em Londres; em Marquise, mulheres duma trupe teatral correndo por ruas enlameadas atrás dum banheiro público. Mania da nossa época resentnik, mostrar a lama embaixo da colunata dórica, os piolhos do cavalheiro emperucado - como se a realidade que as pessoas viveram fosse mais importante do que a realidade que elas idealizaram. E tudo porque somos incapazes de colunatas dóricas ou de cavalheiros emperucados.
Quer dizer.

Posted by Rodrigo de Lemos at março 1, 2007 04:19 PM
Comments
Ainda bem que há os bons filmes, como Casanova.
http://www.imdb.com/title/tt0402894/
Posted by: Gustavo at março 1, 2007 06:29 PM
Rodrigo, seu post me lembrou imediatamente um trecho da "História do Amor no Ocidente", do Denis de Rougemont, que já publiquei no meu blogue. Transcrevo:
"Todos nós, herdeiros do século XIX, somos mais ou menos materialistas. Se nos mostram rudimentos de fatos 'espirituais' na natureza ou no instinto, logo julgamos possuir uma explicação para esses fatos. O mais baixo parece-nos o mais verdadeiro. É a superstição do tempo, a mania de 'reduzir' o sublime ao ínfimo, o estranho erro que toma por causa suficiente uma condição simplesmente necessária. É também o chamado escrúpulo científico, do qual precisamos para libertar o espírito das ilusões espiritualistas. Mas não consigo compreender o interesse de uma libertação que consiste em 'explicar' Dostoiévski pela epilepsia e Nietzsche pela sífilis. Curiosa maneira de libertar o espírito, essa que se reduz a negá-lo."
Abraços!
Posted by: Ruy at março 2, 2007 12:03 AM
gustavo: o filme é bom mesmo, mas casanova é século XVIII, o que é bem mais perdoável: libertinagem, iluminismo, essas coisas.
ruy: belíssimo o texto. verdade e dou fé.
abraços
Posted by: rodrigo de lemos at março 3, 2007 02:03 PM
Oh, é verdade, século errado, século errado.
Mas tenho uma boa desculpa: você tava no XVII, o Ruy no XIX. Pra mim sobrou só o XVIII. Que é o mais legal dos três, quando falamos de filmes.
:¬)
Posted by: Gustavo at março 3, 2007 04:51 PM