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fevereiro 26, 2007
o porky's da filosofia
Sempre fico desagradavelmente surpreso com essa gente que leu Nietzsche via franceses década de 60. Nietzsche anarquista, Nietzsche libertário (no sentido mais pussy de libertário). Citam Além do Bem e do Mal como se Nietzsche fosse um hippie fazendo miniaturas de Raul Seixas em arame na Praça da Alfândega.
Não foi exatamente isso que eu entendi. Até os 15-16 anos, era tão esquerdista quanto todo mundo que lê livros grossos aos 15-16 anos; o marxismo é o Porky's do intelecto. Com uma diferença, que hoje agradeço: eu era radicalmente de esquerda. Nada de social-democracia, PT, Marta Suplicy, esquerda rosa. Um mundo totalmente novo. Il faut changer la vie. Revolução proletária sim, se fosse o jeito. Vanguarda. Partido único. Revolução de costumes. Ai como era grande.
Acabei comprando O Crepúsculo dos Ídolos por pura irresponsabilidade. Precisava de troco para um sorvete italiano; do lado tinha uma loja de livros, velharias em promoção. Incrível como aos 15-16 anos qualquer coisa pode mudar as opiniões políticas, até um sorvete italiano.
O Crepúsculo dos Ídolos. Se não foi o melhor livro que li na vida, foi o que li melhor. Cada parágrafo desfazia no ar algum dogma gauche em que eu tinha me apoiado. Fui me dando conta de que, muito mais do que o paraíso igualitário que o marxismo prometia, era uma idéia estetizada da Revolução o que me agradava no radicalismo de esquerda. O elitismo bolchevique, a Roda da História girando implacavelmente, esmagando quem quer que tentasse pará-la. Não acreditava nem um pouco que quem estava destinado a fazer ela girar fosse o borracheiro do meu pai.
Então, enquanto outras pessoas na mesma idade liam Nietzsche como medalha na lapela de modernidade, O Crepúsculo dos Ídolos me fez perceber o quanto as minhas utopias eram pré-modernas e desigualitárias. Reacionárias, numa palavra.
Não tenho hoje a mesma relação de antes nem com esse livro, nem com os outros dele: muita coisa na obra de Nietzsche perdeu a importância que tinha para mim dez anos atrás. O que não me impede, claro, de ensaiar defesas quando ouço alguém falando mal. Se não consigo levar elas até o fim é por um motivo: Nietzsche estava errado. Acreditava que, criticando os sistemas tradicionais de pensamento e religião, fortaleceria o indivíduo. Criticar a religião e os sistemas tradicionais de pensamento virou sinônimo de bem-pensar, e nunca estivemos tão longe das Cruzadas - talvez o maior ato de heroísmo coletivo do ocidente e comandado exatamente pelo que Nietzsche desprezava como "rebanho" cristão.
O que temos hoje então é uma sociedade de individualistas sem grandes indivíduos. Mais para beatniks depressivos do que para os príncipes renascentistas que Nietzsche admirava. A ironia é que vêm exatamente de instituições tradicionais homens de alguma grandeza, homens que dizem sim enquanto os outros dizem não. O Papa, que insiste em ser pró o que todo mundo é contra e contra o que todo mundo é pró, apesar de você.
Posted by Rodrigo de Lemos at fevereiro 26, 2007 12:21 PM
Comments
garoto rebelde...!!!
Posted by: juanito at fevereiro 26, 2007 01:25 PM
Engraçado tu escrever isso. Eu me vi, juro. Também era de extrema esquerda até há uns anos, quando adolescente. Lia Marx e dava tudo por uma camiseta com estampa do Che - peça que, hoje, se vejo alguém usando, sorrio sarcástico. Não é que com o tempo nos tornamos direitistas; é que, com o tempo, vemos o quanto nossos professores falavam sério quando diziam ser o comunismo nada mais que utopia.
Posted by: Ed at fevereiro 26, 2007 04:31 PM
O Pequeno Príncipe dos universitários, sem dúvida.
Posted by: Farsante at fevereiro 26, 2007 10:07 PM
Coloquei a URL errada.
Posted by: Farsante at fevereiro 26, 2007 10:09 PM
Hi. This is really interesting post. Thank You! I have just subscribed to Your rss!
Best regards
Posted by: Forexman at junho 5, 2008 03:02 AM