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fevereiro 03, 2007
mémoires d'hadrien
Marguerite Yourcenar diz num Carnet de Notes que se fosse na Antiguidade, Mémoires d'Hadrien teria sido uma epopéia; na Idade Média, uma farsa; na Renascença, um tratado. Como foi escrito no século XX, Mémoires d'Hadrien apareceu como romance. Bien entendu, isso não quer dizer que na Antigüidade ou na Idade Média ou na Renascença eu teria ido além do primeiro capíulo que eu mal consegui atravessar no século XX.
O problema é que Marguerite Yourcenar era lésbica. Tinha um estilo solene e sem graça, um estilo videokê de bar de caminhoneira com músicas do Gonzaguinha. Bem mais provável um homem (gay, não-gay) ou uma mulher heterossexual charmosa escrever na voz do Imperador Adriano com trejeitos de Bertram Wooster do que uma lésbica diáfana dividida entre a vontade de permanência e a multiplicidade dos quereres conflitantes.
("Vale, old topus! - dixit Hadrianus Magnus.
Responsit Bertranus Wooster: - Right-ho, Augustus Imperator et Dominus Orbis Terrae!"
P. G. Wodehouse, Gratias, Jeeves!)
E, pior que lésbica, francesa. A certa altura do primeiro capítulo, ela põe Adriano para falar sobre "o desejo". "O desejo é a vontade de encontrar-se com a falta, com o desejo do Outro", tudo assim, cheio de Iniciais Maiúsculas e palavras sábias; fiquei esperando quando ele ia falar em "paradigma". O tom é o de um Adriano bourgeois-bohème, apertando num terninho Prada e discípulo da dupla de trapezistas Deleuze&Guattari.
O que indica uma falha que não é uma falha qualquer num romance em primeira pessoa sobre uma figura histórica: ao menos nessa primeira parte, Marguerite Yourcenar não conseguiu achar uma voz convincente para Adriano. Por exemplo, na carta para Marco Aurélio - outro romano - Adriano escreve sobre alguma coisa que acontece nas "festas romanas" . Esse adjetivo, "romanas"; soa falso. Parece que "romanas" está ali mais para o leitor do romance do que para o próprio Marco Aurélio, que devia conhecer as festas do próprio país e saber que tal ritual acontecia em tal festa. É como um brasileiro se referindo às "festas brasileiras" para outro brasileiro, e não diretamente a Carnaval, São João, essas coisas. A não ser que junto esteja alguém que não conheça as festas brasileiras e precise de explicação. No caso de Mémoires d'Hadrien, quem está lendo. Daí tantos momentos "vamos informar o leitor ignorante sobre a vida em Roma", um faux-pas de estilo que, se Yourcenar não fosse lésbica (e absorta nos Grandes Pensamentos), ela teria evitado. Celui qui s'occupe trop des grandes choses, est souvent incapable des petites (La Rochefoucauld ao contrário), a fórmula do escritor ruim.
Posted by Rodrigo de Lemos at fevereiro 3, 2007 07:33 PM
Comments
a provocação merecia um duelo em mesa d bar. e atenção: ela não era lébisca nem francesa. era bi e belga.
mas nada disso vem ao caso. opções sexuais ou ideológicas não determinam o valor de uma obra nem o talento d um escritor. para mim, yourcenar domina com maestria a construção de cenas, a apresentação de personagens e o desenvolvimento da trama. o começo de memórias é a segunda melhor apresentação que já li de um homem q se julgava deus, encarando a velhice, a doença e a morte iminente (a primeira é o mito de buda).
quem se ocupa desses temas maiores, supera todos os menores.
até mais! é um prazer discordar d vc.
Posted by: luizgusmao at fevereiro 3, 2007 09:03 PM
correção: a primeira é o mito de gilgamesh. buda nõa se considerava um deus.
Posted by: luizgusmao at fevereiro 3, 2007 09:24 PM
bi é lésbica em cima do muro; belga é francês que não deu certo. quanto às tuas observações quanto a yourcenar, só mudaria o começo do post para dizer que talvez mémories d'hadrien como tratado renascentista tivesse dado mais certo. se você quer se ocupar com temas maiores escrevendo num estilo menor, melhor um bom texto argumentativo do que um romance meia-boca.
mas releve as minhas opiniões. eu sou só alguém que confunde português com francês e escreve renascença do com dois "s" (renaissance). :-)
abraço
Posted by: rodrigo de lemos at fevereiro 4, 2007 12:41 AM
Eu acho que já tentei ler alguma coisa dela, mas é irrelevante, porque, se eu consegui, não lembro; se não consegui, bem, continuo não lembrando.
Posted by: Gustavo at fevereiro 4, 2007 07:06 AM
hihihi. você é d+!
beijos e abraços meu rapaz!
mas falando sério, que tu tem produzido? manda pra gente ver manda... matamo assim a saudade.
Posted by: x. da k at fevereiro 4, 2007 01:04 PM
Se fosse escrito hoje, o livro seria uma série de posts, picadinhos, que as pessoas leriam aos poucos, recuperando nos arquivos o que já ficou para trás. Como o tempo é volúvel, não?
Posted by: Paulo at fevereiro 13, 2007 02:40 PM