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fevereiro 01, 2007

only a movie

Paguei uma entrada para mim, outra para o Meu Preconceito Favorito contra a oeuvre de Mel Gibson para ver Apocalypto no Arteplex. Logo na primeira cena, a câmera filma por uns três segundos uma árvore. De repente, explode uma música toda nervosa e um porco-do-mato sai dum matinho pra me dar susto. Olhei para o Meu Preconceito Favorito revirando os olhos do meu lado. Ainda bem que ele tinha vindo.

Meia hora depois eu nem lembrava dele ainda ali. Alguém que não tenha no mínimo simpatia por civilizações de Clóvis Bornays assassinos só pode ter uma sensibilidade muito árida. Um xamã assando corações humanos em ervas, coquetes maias em liteiras se abanando com leques, escravos sujos e fanatizados, dancinhas engraçadas, um sacerdote com máscara de bicho, tudo ao mesmo tempo; me surpreendeu a semelhança com as cenas de crueldade luxuosa em Satyricon de Fellini. Aliás, os penteados estrombóticos também, parecidos com os dos nobres decadentes no Império Romano. Só poupo vocês de uma teoria relacionando a estranhice do cabelo com desenvolvimento da civilização porque seria obrigado a evocar Ivana Trump como grande avatar da cultura.

Isso sem falar no prazer de ver acadêmicos dessorados esperneando nos jornais e na internet contra a incorreção política do filme. Para mim, sem muita razão. Só alguém muito paranóico anti-cristão (e Mel Gibson ser cristão é uma falha artística que as pessoas não perdoam) para acreditar que a chegada dos católicos em Apocalypto representa a "racionalização do fanatismo maia" como li por aí e não a volta contra os próprios maias da mesma brutalidade de que eles abusavam. Porque esse é um dos pontos fortes do filme: mostrar que os maias ou os astecas ou whatever foram os espanhóis para os povos mais primitivos que viviam na América. Os próprios botocudos nem eram tão legaizinhos assim - não é por nada a semelhança entre as cenas dos primitivos perseguindo e despedaçando o porco-do-mato e as cenas dos primitivos perseguidos e despedaçados pelos maias.

Das críticas negativas que li depois, a maioria vinha do côro de pussies habitual enojados com o que eles chamam de violência gratuita - gente que, se a Ilíada saísse hoje, diria que o autor deve ser neocon porque Aquiles arrasta o cadáver de Heitor ao redor da cidade ou algo do tipo. Outros críticos dizendo que algumas peripécias (o eclipse, as cenas finais) são forçadas demais, o que é meio óbvio. Mas todas as resenhas tão mal escritas - na Zero Hora, e deve ser na Zero Hora se está mal escrito, o jornalista não gostou do roteiro por ser "recheados de clichês", como se o filme fosse um rocambole.

Quando as resenhas não eram escritas por estetas de sensibilidade exigente para todos os objetos de arte do mundo menos os próprios textos deles, eram escritas por historiadores ou arqueólogos enchendo a paciência porque um friso na decoração de um templo não corresponde àquele período da civilização maia. Até entendo essas pessoas. Se fizessem um filme sobre alguma coisa em que sou especialista - não sei, a vida de David Bowie - eu também ficaria indignado se mostrassem ele conhecendo Marc Bolan em 67 e não em 66; já quanto a escrever um artigo na New Yorker reclamando... Esse é o problema dos especialistas: se as pessoas quisessem saber tudo sobre a história maia, elas veriam um documentário. "Relax, it's only a movie!", como me disse o Meu Preconceito Favorito fazendo voz de Hitchcock depois da primeira meia hora.

Posted by Rodrigo de Lemos at fevereiro 1, 2007 04:29 PM

Comments

me parece que toda vez que um crítico reclama que alguma coisa é recheada de cliches ele deveria explodir em um grande cliche colorido. regado a muita cerveja, tambem. claro, claro.

Posted by: Olivia at fevereiro 1, 2007 05:12 PM

it's only a movie but... deixando os críticos de lado, será q mel anda lendo cormac mcarthy? besteira, ele não precisaria disso para conhecer a lei mais antiga do mundo [já tá lá nos vedas]: "o peixe grande engole os pequenos e os pequenos devem ser rápidos e numerosos". os primitivos devoram javalis, os maias devoram primitivos, os espanhóis devoram os maias: that's hard power politics among civilizations.

Posted by: luizgusmao at fevereiro 1, 2007 08:24 PM

O mais legal é que o mesmo tipo de gente que não gosta de violência gratuita gosta de violência com preço, se esse for o contrário. Bando de esnobes.

Posted by: Gustavo at fevereiro 1, 2007 09:02 PM

Meu caro Rodrigo de Lemos, Mel Gibson está registrado indelevelmente em minha lista das criaturas que julgo insuportáveis. Infelizmente, não tenho os meios físicos para alcançar e punir Mel Gibson, então eu o imagino recebendo uma circuncisão pelas artríticas e já trêmulas mãos do rabino Henry Sobel. Não é muito, mas contenta um pouco a alma.

Posted by: Dennis at fevereiro 1, 2007 11:46 PM

Ah, voltei para fazer uma confissão: assistirei ao filme do Gibson, sim, porque fiquei muito curioso com a tal cena do porco-do-mato saindo do matinho.

Posted by: Dennis at fevereiro 2, 2007 01:14 AM

Lembro-me de quando a crítica era uma espécie de diálogo - o jornalista ou quem quer que fosse escrevia para o leitor, considerando a variável entre o próprio gosto e o gosto de quem lê. Hoje os criticozinhos concentram-se no próprio umbigo para falar de clichés como quem fala da tia chata.

Posted by: Ed at fevereiro 2, 2007 08:30 AM

Bah, volta e meia a crítica de cinema acéfala (isto é, basicamente ela toda) tem surtos de revolta politicamente correta, e o Mel Gibson, sei lá eu bem por que razão, virou um pato favorito (bem, filmar em aramaico é meio ridículo, mas não era isso que se dizia da Paixão dele por aí).

Isso posto, meu querido, eu chamei a atenção dos meus colegas de baia com meu ataque de riso diante da civilização de Clóvis Bornays assassinos. Não me faça isso... ;)

Posted by: Mme. R. at fevereiro 2, 2007 04:38 PM

vocês sâo muito chatos!!
e os filmes do mel gibson também...

Posted by: k at fevereiro 3, 2007 11:33 AM

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