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fevereiro 21, 2007
chic de chez chic
(Para LC, com um torrão de açúcar)
O que caracteriza uma mulher que tem du chic é exatamente não ter a toda hora. Pensem num daqueles discos oitentistas de Leonard Cohen, a letra e a música perfeitas, mas aí vem um saxofone de motel ou um coro feminino kitsch, como se o arranjo desdenhasse a própia perfeição do resto. Algumas mulheres que naturalmente têm classe - franqueza sem maldade, bom corte de cabelo, trejeitos de gato ao entrarem numa sala cheia - também são assim: se dão ao luxo de às vezes fazerem coisas que seriam gafes para outras em quem o chic é forçado.
Só pode ser essa a explicação para aquele perfume horrível na penteadeira duma amiga que de outra forma - ou por isso - seria a encarnação de uma mulher de Georges Lepape.
Vejam que estou falando mais de se permitir uma imperfeição just for sport do que forçar uma para chegar ao perfeito. Minha amiga não comprou um perfume de farmácia para mostrar que tinha bom olfato. Era exatamente porque ela tinha bom olfato que aquele perfume ruim estava na penteadeira, porque ela conseguiu distinguir na fragrância alguma nota que uma mulher grosseira usaria sem perceber e que uma forçadamente chic estaria ainda mais longe de notar por esnobar a própria idéia de comprar um perfume de farmácia. E claro que ela viu o frasco horrorosinho, a foto preto e branco com filtro rosa dum casal se beijando na beira da praia. Um capricho de consumo irônico para quem parece a encarnação de uma mulher de Georges Lepape.
*
"I warned you of charm. Charm is the great English blight. It does not exist outside these damp islands. It spots and kills anything it touches. It kills love; it kills art; I greatly fear, my dear Charles, it has killed you."

(Rex Whistler)
Posted by Rodrigo de Lemos at fevereiro 21, 2007 02:36 PM
Comments
Issu explica a paixão de alguns intelectuais pelo Big Brother...
Posted by: Lukas at fevereiro 22, 2007 02:34 AM
Eu sempre me interroguei um pouco sobre o que ele quereria dizer com isso do charme matar a arte, matar o amor, etc. Será que ele se está a referir ao excesso de artifício e de civilização, ao pretenciosismo?
Posted by: Mariana at fevereiro 24, 2007 09:57 AM
não sei se preciosismo é exatamente a palavra, mas com certeza falta duma certa bizarrerie. é isso que antoine blanche esperava das pinturas "exóticas" de charles. não que ele não tenha alguma razão; o clichê da pintura inglesa sempre tem um quê creamy e pálido. difícil pensar num klimt inglês.
Posted by: rodrigo de lemos at fevereiro 24, 2007 12:12 PM