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janeiro 30, 2007

atenção: este artigo possui passagens que não respeitam o princípio da imparcialidade

Quando li o verbete sobre Paulo Francis na Wikipedia, me veio a tentação de me cadastrar só para corrigir as partes especialmente constrangedoras da página. Aí me dei conta de que o texto como estava depunha mais contra a criatura que escreveu do que contra o próprio Francis. Um sujeito que acredita tanto em universidade a ponto de escrever que "ao jamais concluir qualquer curso formal, no entanto, Paulo Francis desenvolveu os vícios típicos do autodidatismo" assim, sem nem um :-) no final, só pode ser uma versão semi-letrada de vó que chora em formatura.

(Engraçado é que as pessoas que admiram Lula por só ter "freqüentado a escola da vida" são as mesmas que acusam Paulo Francis de autodidatismo. Ma avanti.)

Se tivesse parado por aí, o texto seria só estúpido. Mas a coisa continua, e além de estúpido o texto é mal-intencionado. Sobre a conversão do Paulo Francis ao neoliberalismo. A esquerda nunca vai perdoar, é claro. Pior que o pagão é o herege: o sujeito conheceu a Verdade, pregou a Verdade, trocou abracinhos com Ela, e depois sai por aí dizendo que não é bem assim. Feio, muito feio. Segundo o próprio Francis numa entrevista, ele ouviu a voz nos anos 70, quando percebeu como o operariado americano vivia bem numa economia de mercado sem ter a mínima idéia do que era revolução trotskista. Para o autor do verbete, Francis só se afastou do Bom Caminho e se aliou à elite malvadona depois de 85, quando o "'esquerdismo festivo' tornou-se fora de moda, e Francis não teve a coragem e/ou a convicção que o fizesse manter uma posição que se tornara impopular." Uma análise que coloca o sujeito acima de Proust ou Freud: sem nunca nem ter visto Paulo Francis, a criatura consegue encontrar motivos psicológicos que o próprio Francis não admite.

Outro momento dos mais comoventes é a conclusão do artigo: "o problema é ter em conta sua falta de método e de perspectiva." Escuta, qual era o método de Mencken? E de Nelson Rodrigues? Incrível, mas parece que os melhores jornalistas nunca estiveram na academia e, se estiveram, preferiam não ter ido. Mas o problema dessas pessoas que começaram a formação intelectual na faculdade (e deve ser o caso do autor do texto, pelo jeito de provinciano orgulhoso com que fala em "perspectiva" e "ensino formal") não é só elas terem começado tarde. O problema é elas terem levado tão a sério os professores. Não que essas pessoas sejam exatamente burras, mas é que o Lao-Tzu que abriu a mente delas para idéias mais complexas foi um doutor em Comunicação distribuindo xerox sebentos de Edgar Morin. O "método", a "perspectiva" é o Tao delas, o Caminho para a Sabedora ou pelo menos para uma Bolsa do CNPq. Vai ver por isso elas atribuem aos "vícios do autodidatismo", à "falta de método e perspectiva" qualquer idéia dum polemista com que elas não concordem. Mas pode ser também por canalhice.

Posted by Rodrigo de Lemos at janeiro 30, 2007 01:47 PM

Comments

Despicable, indeed. Não sei porque eles não vão lá fazer verbete sobre o Emir Sader, o Boffeto, e deixam em paz o lado de cá...

Posted by: mauro at janeiro 30, 2007 03:56 PM

Muito bom, Rodrigo.

Posted by: Alexandre S. at janeiro 30, 2007 05:53 PM

Não sabia dessa do Francis não ter educação formal. Tá explicado porque ele é tão bom.

Posted by: evelyn at janeiro 30, 2007 10:33 PM

Perfeito.

Posted by: Ed at janeiro 31, 2007 09:00 AM

Que crime! Ele não sabia o conceito de aura de Adorno! Coitado, ocupou tempo demais com coisas úteis.

Posted by: Gustavo at janeiro 31, 2007 09:44 AM

Ops... de Benjamin, não de Adorno.

Posted by: Gustavo at janeiro 31, 2007 09:45 AM

Eu juro que no comentário do Gustavo li "conceito de aura de corno".

Posted by: Vesgo at janeiro 31, 2007 02:39 PM

Excelente, Rodrigo. Observe que o autor do verbete é daqueles que escreve "elite" com uma mão no teclado e a outra tapando o nariz.
Eu gostaria de ter a oportunidade de encontrar o sujeito e, imitando um professor universitário bem ao seu gosto, perguntar: defina elite.

Posted by: Roger Prado at janeiro 31, 2007 05:05 PM

O que eu mais gostei foi da magnífica construção "ao jamais concluir", coisa que qualquer autodidata decente espantaria do texto a vassouradas. Academia, eu quero uma pra vivê-êr.

Posted by: McNasty at janeiro 31, 2007 10:33 PM

Acho estranho isso. Academia eh uma porra, quem ja passou por la sabe. Eu percebi no 1 ano de faculdade, foi cedo, ou melhor foi na hora certa. Nao entendo quem leva mais de um ano pra notar isso. Ta la, ninguem esconde nada. Na primeira aula de portugues, queriam que eu assinasse uma resenha que confundia governo e estado. Nao assinei, fui pra exame. Nesta mesma aula, a professora que nem sabia colocacao pronominal direito (usava constantemente mim, o mim dela fazia tudo) disse que nos aprenderiamos naquele semestre que a maioria dos jornalistas nao sabem escrever. Paulo Francis com certeza nao sabia. E eu com certeza nunca saberei...

Posted by: raoni at fevereiro 1, 2007 12:20 AM

George Bernard Shaw: "The only time my education was interrupted was when I was in school."

Posted by: Mme. R. at fevereiro 2, 2007 04:49 PM

Gente, vocês se preocupam demais com essa coisa da formatura. O facto apenas merece uma referência biográfica na wikipedia, nada mais. Vocês vivem obcecados com isso desde o Lula. Bem mais grave, e isso merecia um forte protesto aqui mesmo, são essas falsas insinuações de comportamento indigno e cobardia perante um processo judicial. Porque, obviamente, nada daquilo que é relatado aconteceu de verdade.

Posted by: caramelo at fevereiro 2, 2007 06:58 PM

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