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janeiro 08, 2007
videoteca de alexandria
Uma velhinha vendo a primeira casa dela virar boate de adolescente, vendo o salão de baile em que ela conheceu o marido transformado em agência de empréstimo (claro que ela não vai resistir e vai entrar pra se endividar toda e comprar mais uma televisão), foi assim que eu me senti quando descobri que a minha locadora está vendendo o acervo de raridades em VHS, trocando tudo por DVD. Pelo que me explicou o garoto do balcão, pouca gente ainda locava as fitas, e no lugar de um VHS de Ninotchka, de A Marca da Maldade, dava pra colocar três DVDs com a Meg Ryan na capa jogando os braços pro alto como numa propaganda de Molico.
Foi nessa locadora que começou pra mim o que amigos cineastas chamam de "educação fílmica". Digo que não é verdade, que começou numa Sessão de Tarde dos anos 80 vendo Um Morto Muito Louco e comendo Negresco, mas ele dizem que não, que foi com O Discreto Charme da Burguesia. Tudo bem, O Discreto Charme da Burguesia foi mesmo o primeiro filme que me agradou sem eu entender nada. Não que hoje seria igual: Buñuel até entendo, mas nem sempre gosto.
Mas devo a essa locadora algumas das minhas melhores lembranças com filmes: sessões de expressionismo alemão em noites chuvosas, a coleção Luchino Visconti quase inteira (faltavam, ou não faltavam, uns filmes marxistas do começo), uns musicais da Metro, alguns Dziga Vertov. Também o pornosoft aquele da Xuxa - essa era das poucas locadoras que tinham, mesmo depois da proibição. Vou sorrir sadicamente com o consolo de que Amor, Estranho Amor não vai sair em DVD e que essas pessoas que insistiam em não locar VHS vão passar o resto da vida se revirando de insônia, tentando descobrir se é verdade mesmo que a Xuxa pede para um menininho lamber o mamilo dela e tal.
E de repente tudo isso vai ficar só na memória porque elas jogaram fora os videocassetes e porque o dono da locadora quis lucrar, o que junta num só exemplo o que a democracia tem de nojentinha e o capitalismo de filisteu. Por isso que não tenho muita fé no mercado: geralmente quem têm muita fé no mercado tem também muita fé no julgamento das pessoas. Para eles, se ninguém quiser ver A Um Passo da Eternidade, deixem que acabem com A Um Passo da Eternidade. Eu já acho que se ninguém quiser ver A Um Passo da Eternidade, deixem que acabem com as pessoas.
De qualquer maneira, minha videoteca até que se beneficiou do capitalismo malvadão, como sempre acontece quando resolvo falar mal dele. Só hoje comprei quatro filmes:
1) Os Nibelungos, parte I e II, de Fritz Lang: porque é simplesmente o melhor filme do mundo. Épico germânico, ambientação medieval (mas música paleo-futurista), figurino inspirado em Klimt, e uma Kriemhild que lembra o Boy George. Se não fosse mudo e preto-branco e aquele monte de hunos trucidados a sangue-frio, fácil fácil confundir com o clipe de Karma Chameleon.
2) Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel: foi o filme que me mostrou o quanto sensibilidade individual é mais importante que grupinhos ou escolas de arte. Nada me é mais repelente do que pintura surrealista, e a poesia de Breton et alii acho seca e sem graça, mas o Buñuel de alguns momentos da Idade de Ouro e de O Cão Andaluz é excelente, ou ao menos eu acho engraçado na cena do barbeiro, na do ceguinho tocando com a bengala a mão decepada no meio da rua. Mesmo que não fosse tão bom, impressiona em telão de boate.
3) Macbeth, de Orson Welles: uma câmera na mão e alguma coisa na cabeça pode dar certo se a coisa for o elmo com que Orson Welles aparece na capa da fita. Faltou dinheiro para o filme, e ele teve de usar figurinos irrealistas e cenários toscos cheios de fumaça. Deu certo porque a estilização parece voulue. E, o mais importante, na hora do "Out, out brief candle!", Orson Welles fez o que todo diretor que filma Shakespeare deve fazer nos melhores monólogos: não filmar nada. Difícil achar uma imagem que complemente as palavras, já tão perfeitas.
Nas seis paredes de filmes à venda achei ainda Adorável Pecadora, As Diabólicas, Trono Manchado de Sangue, Os Sete Samurais, Gigi, O Sétimo Selo, My Fair Lady, Spartacus, Blonde Venus, A Um Passo da Eternidade, Meu Tio, Ladrão de Casaca, Nosferatu, Morte em Veneza, Bonita Como Nunca, O Anjo Azul, Alta Sociedade, a coleção Hitchcock e também a pornochanchada "O Libertino", com Costinha no papel principal. Dou o nome da locadora depois de comprar tudo, que algum leitor de Porto Alegre pode ser mais rápido (principalmente quanto ao filme do Costinha).
Posted by Rodrigo de Lemos at janeiro 8, 2007 05:38 PM
Comments
mas, meu filho, hoje em dia com emule quem precisa de locadora, quanto mais de vhs?!
Posted by: diaspora boy at janeiro 8, 2007 06:33 PM
Emule que nada. O VHS está para um livro assim como o emulador está para um arquivo pdf.
E Macbeth foi uma ótima aquisição.
Posted by: Ed at janeiro 9, 2007 08:06 AM
filme do emule tem como rebobinar? adoro rebobinar fitas, é como virar o lado no disco de vinil.
ed, comprei hoje mesmo trono manchado de sangue, kurosawa. macbeth adaptado ao japão, "melhor filme do mundo segundo t.s. eliot" dizia na caixa (muito highbrow indeed). só a tradução ficou estranha; marcelo rota do blogauti tem razão mesmo(http://blogauti.wunderblogs.com/archives/2005_02.html): parece que lady macbeth estava menstruada.
Posted by: rodrigo de lemos at janeiro 9, 2007 04:43 PM
Heheh.
Posted by: Ed at janeiro 10, 2007 09:38 AM
engraçado...tinha achado o ator principal de ´O Libertino´ parecido com johny deep, mas vai ver o Costinha novo era um gato tbm
Posted by: k at janeiro 10, 2007 08:47 PM