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dezembro 26, 2006

o livro vermelho da classe e sofisticação

Já notaram que agora é tendência entre os seus amigos esquerdinhas ficar dizendo que o problema de rico brasileiro é falta de classe? São as mesmas pessoas que há uns trinta, quarenta anos teriam mandado os ricos brasileiros pro paredão, e certamente não por eles usarem meia branca com terno.

Hoje mesmo estava no jornal o Walter Salles dizendo que não fazia filme sobre a burguesia porque os burgueses daqui eram muito caricatos. Fiquei pensando se existe alguma coisa no Brasil que não seja muito caricata - a começar pelos pobres. Um pouco depois, na página policial, tinha a história dum menino que na noite de Natal morreu de bala perdida por causa dos tiros que os pobres dão pro alto na hora dos fogos de artifício, vejam bem.

Não que rico brasileiro seja exatamente o máximo - a maioria dos que conheci se cai de quatro não levanta. Mas Stendhal reclamava da mesma coisa dos ricos franceses em 1840 (lembrem da cena de Le Rouge et le noir em que um burguês ficava dizendo pro Julien Sorel o preço dos móveis da sala, de cada vinho que o mordomo trazia); a comédia de costumes na Inglaterra era basicamente comédia com os costumes dos nouveaux riches - e Margot Beste-Chetwynde do Evelyn Waugh springs to my mind; e, agora quase no nível do romance Amiga, um amigo não faz muito foi a um casamento num castelo na Bretanha com noiva saindo de bolo e baile ao som do que seria Sandy&Junior pra nós. Pergunta para amigos aristocráticos defensores de livre mercado: rico cafona não vira uma constante sempre que se elimina uma classe ociosa, preocupada com a melhor maneira de entrar numa sala, de segurar um copo, em favor de parvenus administradores de empresas? Comparem a república romana com Satyricon; isso não é especialidade nem brasileira, nem do século XX.

Mas pergunto isso pros de direita porque dos esquerdistas eu não espero nada assim como uma resposta. Eles só criticam o que chamam de falta de classe do rico brasileiro porque já não podem mais fazer o discursinho comunista sixties de sempre. E isso não pelo fim da União Soviética, por algum problema ético com ditaduras. Um motivo de certa maneira muito melhor: nada faz mais olhos revirarem numa mesa de bar que gente defendendo Fidel Castro. Espero que tenham descoberto também como eram feias aquelas golinhas Mao.

Posted by Rodrigo de Lemos at dezembro 26, 2006 05:05 PM

Comments

Em verdade, todo mundo acha que reclamar é um charme. Reclamar de qualquer coisa, digo (vide eu mesmo).

Posted by: Ed at dezembro 27, 2006 11:28 AM

Veja só, estou lendo "Contraponto", de Aldous Huxley, onde tem um diálogo que me fez rir um bocado:
"- Como eu detesto os ricos! Detesto-os! Não acha você que eles são horríveis?
- Mais horríveis que os pobres?"

E segue o diálogo em que o suposto defensor dos pobres prova a maior horribilidade dos ricos em função destes não terem vizinhos, ou prescindirem deles. Em humor, Aldous Huxley é muito Evelyn Waugh, ou vice-versa.

Posted by: Luciano at dezembro 28, 2006 10:46 PM

Cineasta brasileiro é muito caricato...

Posted by: Severo at dezembro 29, 2006 05:09 PM

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