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dezembro 15, 2006

visez au coeur, belles dames!

Difícil não ficar meio melancólico vendo gravuras do George Barbier - não só porque a nossa vida não é como os desenhos dele, mas porque a própria vida não pode ser daquele jeito. Gente de verdade tem essa desvantagem, elas nunca ficam paradinhas pra não estragar a composição. Capaz de me acharem um chato se eu ficar dizendo pra elas que cor vestir, trocando elas de lugar toda hora pra combinar a roupa com o ambiente.

Mas não é só a relação entre as cores, que ele tem a virtude de combinar tão bem, mas que acima de tudo ele sabe contrastar pra criar efeitos bizarros, nem o traço fino e delicado, inspirado em ilustrações orientais, que me agrada tanto nas gravuras do Barbier. Isso aparece um pouco mais um pouco menos desenvolvido em outros da época - Robert Pichenot na série dos Costumes Parisiens tem qualidades parecidas. O maior valor que têm esses desenhos, e o que coloca eles tão acima de outros da época, é que eles sempre contam uma história. E, mais do que isso, eles contam uma histórias pelos detalhes: a carta que mal aparece em La Première Imprudence, o olhar de desprezo da mulher em Adieu!. São eles que remetem a alguma coisa que aconteceu ou que vai acontecer fora da cena pintada - e se contar uma história por imagens já é difícil, fazer isso numa só gravura usando detalhes desse tipo pra mim é grande arte.

Os desenhos de outros ilustradores da época são exercícios de estilo com dândis e coquetes que parecem ícones indianos de piteira na boca e peignoirs, indiferentes e sem paixões. Os dândis e as coquetes do George Barbier podem parecer tão indiferentes e sem paixões quanto os outros - mas a inclinação no corpo dum dançarino, o olhar vago dum viciado acabam sugerindo, por trás da frivolidade que é a primeira coisa que todo mundo vê, a melancolia dos freqüentadores numa casa de ópio na China, o desejo mais ou menos contido do dançarino pela parceira.

E os títulos dos desenhos, magníficos. Visez au coeur, belles dames! ou La Première imprudence; queria ter escrito coisas assim pra falar da malícia na toilette das mulheres, da imprudência que é o começo de qualquer caso de amor. São frases de homem do mundo qui ne se pique de rien: elas velam com um humor cínico e sofisticado o que as relações entre homens e mulheres podem ter de trágico - e logo, de meio breguinha. La Rochefoucauld ficou famoso por uma arte parecida.

Chega de falar. Vejam agora as ilustrações e discordem de mim em tudo:

George_Barbier_Visez_au_Coeur_Belles_Dames_1040_35 petit.jpg
Visez au coeur, belles dames!

George_Barbier_Au_Lido_1027_35 petit.jpg
Au Lido

George_Barbier_Chez_La_Marchande_de_Pavots_1022_35 petit.jpg
Chez la Marchande de pavots

George_Barbier_Les_Allies_a_Versailles_1039_35 petit.jpg
Les Alliés à Versailles

George_Barbier_LAmour_Est_Aveugle_1036_35 petit.jpg
L'Amour est aveugle

georges barbier 20_34_ADIEU petit.jpg
Adieu!

georges barbier ].jpg
La Villa d'Este

georges barbier 20_34_LAPREMIERE petite.jpg
La Première Imprudence

Posted by Rodrigo de Lemos at dezembro 15, 2006 07:30 PM

Comments

Gostei especialmente da "Adieu!". Aliás, nunca li La Rochefoucauld. Nunca acho pra empréstimo em bibliotecas perto de mim. Mas devo tentar ler.

Posted by: Gustavo at dezembro 15, 2006 09:30 PM

Que bom que Rodrigo não fala de que época se trata e nos obriga a ir pra wikipedia.

Gustavo, clica nesse nome laranja aqui embaixo e procura aqui no blog de Rodrigo que tem um monte de traduções da sua (dele) lavra.

Posted by: tiago a. at dezembro 16, 2006 01:25 AM

Oh, ok, obrigado. Li as traduções do Rodrigo, algo a que se é obrigado quando não se sabe a língua do escritor.

Posted by: Gustavo at dezembro 16, 2006 09:39 AM

taí um bom motivo pra querer aprender, donc.

Posted by: tiago a. at dezembro 16, 2006 12:35 PM

L'Amour est aveugle é a melhor. Imagino o que acontecia depois que o nobre senhor "pegava" uma das demoiselles... ai ai.

Posted by: Ed at dezembro 18, 2006 12:35 PM

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