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dezembro 07, 2006
as nêgas do kilimanjaro
Semana passada eu trabalhei. Talvez isso soe pra vocês muito menino ocioso que trabalha pela primeira vez e fica "oh, que pitoresco!" como se estivesse fazendo pesquisa participante numa tribo de canibais aborígines, mas a verdade é que por pouco não cheguei na PUC com um roupa de safari e um negrinho equilibrando uma trouxa de rifles e latas de ervilha na cabeça.
Aceitei trabalhar esses cinco dias primeiro porque queria comprar uma coisa cara e inútil que o meu pai não queria me dar e que agora eu já esqueci o que era, segundo porque pensei que ia ser divertido fazer o receptivo das pessoas de países esquisitos que estavam chegando em Porto Alegre prum fórum mundial de alguma coisa - até agora não entendi bem sobre o que era, mas pelas placas de divulgação com fotos dum papagaio numa árvore, dum índio maquiado que nem o guitarrista do Kiss e dum monte de africanos olhando pra câmera e fazendo carinha de africanos, devia ser pra ajudar o Terceiro Mundo, essas coisas.
Falando com tanta gente de tantos lugares, a primeira coisa que eu aprendi foi a minha ignorância quanto às coisas do meu Brasil. Pelo sotaque e pela cor da pele, não sei dizer se o executivo de dente de ouro na minha frente é do Rio, do Amazonas, de Pernambuco. Fiquei feliz comigo; é uma daquelas ignorâncias que eu quero regar todo dia de manhã junto com as minhas plantinhas. Passou a rótula da Carlos Gomes, pra mim já é tudo nordeste.
Mas aproveitei o ensejo para muitas conversas edificantes. Passei por uns garotos do Rio, desses de universidade, sabe; eles perguntavam pra moça das informações qual era a boate em que dava pra agarrar umas gatinhas de Porto Alegre. A moça, uma menina que devia ter chegado de Frederico Westphalen naquela manhã e que certamente corava com beijo de novela, murmurou um "ali na Lima e Silva... na Cidade Baixa...", toda sem jeito. Eu, que estava levando até a sala dos palestrantes um presidente de Ong do Sri-Lanka que andava pra lá e pra cá de turbante e manto laranja tirando foto com turistas como o Mickey na Disneylândia, parei pra salvar a moça: "Sexta no Ocidente. Certo que vocês não saem de lá sozinhos."
(No sábado de manhã eles não apareceram. Nunca é tarde para descobrir a sua verdadeira sexualidade.)
Teve também o dia em que me avisaram que a primeira-dama da Tanzânia ia aparecer na sala de conferências que eu estava organizando. Fiquei com medo de ela entrar na sala girando que nem um tufão, devorando os palestrantes, mas outro organizador me tranqüilizou que o Demônio esse era o da Tazmânia. Meu alívio não durou muito: logo o mesmo sujeito veio me dizer que o Demônio da Tanzânia nem tinha se inscrito pro fórum e queria dar uma conferência. Respondi que não podia, que talvez nos congressos da Tanzânia, se é que eles fazem congressos na Tanzânia, talvez lá a primeira-dama pudesse acordar um dia e resolver dar uma conferência num evento em que ela nem se inscreveu, mas aqui não, aqui todo mundo respeita a programação, e além disso os governantes não podem ter privilégios sobre os governados! A escolta de negrões que rodeava a primeira-dama e a informação de que o governador do estado tinha resolvido de última hora aparecer no fórum e falar na sala do lado da minha foram como todo bom argumento: simples e incontestável. Ela fez a conferência em sujike, e sem tradução.
No outro dia veio um sujeito do Fortaleza ou de Recife - eu sempre troco - puxar conversa comigo perguntando se em Porto Alegre fazia tanto frio o ano todo (olhei no termômetro da rua: uns vinte e poucos graus, mind you). Resmunguei alguma coisa de volta. Daí que eu não sei se a criatura não me entendeu, ou se ela não quis me entender, ou se me entender era uma coisa que ele não achava lá muito importante pra conversar comigo, só sei que o cara começou a discursar que com dezoito anos ele se descobriu como gente e ficou com ódio das monarquias celestes (sério). Eu respondi que das celestes eu não sabia, mas que pelas terrenas eu até que tinha alguma simpatia. O sujeito então me olhou como se eu tivesse chamado a mãe dele de piolhenta: "Porque você só tem simpatia pela monarquias porque a sua cultura não foi dilapidada como a minha, a cultura dos caietés, que tiveram as famílias separadas, as mulheres estupradas...". Perguntei se as mulheres não tinham gostado. Ia perguntar também se os caietés não dilapidaram a cultura de quem estava no nordeste antes deles, mas na hora o Gilberto Gil passou cheio de seguranças - muito diva-like - e ele saiu correndo atrás do cortejo, gritando pro Sêo Ministro um monte de coisas que eu não entendi por causa do sotaque. Peguei só o fim: "...e isso é o que me faz viver!". Não dá pra dizer que eu fiquei triste de não ter entendido o resto.
Mais tarde, na cerimônia de encerramento, a primeira-dama da Tanzânia, que foi solenemente apresentada como primeira-ministra, fez mais um discurso em sujike sem tradução. Durante todo o fórum, fiquei pensando se essa história de primeira-dama da Tanzânia não era farsa de comédia inglesa; vai ver era só uma cobradora do T1 falando estranho, enrolada num lençol. Entretanto, a roupa dela na cerimônia final me convenceu: uma echarpe Channel com o logo bem grande cuidadosamente aberto no peito (a diferença entre africanos em foto de fórum de pobreza e africanos pobres de verdade é que os de verdade preferem fazer carinha de ocidentais mesmo.) O Gilberto Gil falou e falou e depois cantou pro povo cantar junto; ninguém entendeu nada como sempre, mas todo mundo bateu palma. O Ministro do Turismo disse que o Gilberto Gil era um gênio e ele mesmo um pobre mortal. Fiquei feliz ouvindo a última parte.
O fórum acabou com a primeira-ministra da Tanzânia, ou primeira-dama, dando presentes a todos na mesa de encerramento. A um sinal dela, os meninos que eu estava coordenando (e que, apesar das minhas ordens, não estavam de sunga) levaram uns quadros de artistas tanzanianos embrulhados num papel que parecia de loja do centro em época de Natal e deram a cada um da mesa. O Gilberto Gil, que deve conhecer a África o suficiente pra adivinhar que ali vinha bomba, fugiu da mesa a tempo. Sobrou pro Ministro do Turismo, que teve de afetar admiração ao rasgar o papel e dar com a estonteante paisagem duma lavoura africana com nuvens gordinhas no horizonte e uns negros desenhados com pauzinhos trabalhando a terra com enxadas. Imagino que a essa hora os tesouros da arte tanzaniana estejam perdidos no lixão da PUC.
Posted by Rodrigo de Lemos at dezembro 7, 2006 03:09 PM
Comments
Hahaha. Eu ainda não trabalhei. Tenho medo.
E tive um professor meio africano na faculdade, que falava Iorubá. Adorava afirmar que "português não é língua, é dialéto. Língua é Iorubá", sabe Deus porque. Então, esse professor citou uma das importantes contribuições da língua Iorubá no português: "tsc", que significa, em Iorubá, "estalido de reprovação". Hahahaha.
Talvez tenha sido melhor que não tenham traduzido do Sujike.Imagina o tradutor se enrolando: "então, estalido de reprovação, a Tanzânia não pode continuar sendo explorada, estalido de reprovação, estalido de reprovação". Nunca se sabe...
Quanto à temperatura, juro que eu desejaria muito estar uns oitenta graus de latitude mais ao sul. Céus, Recife é o inferno!
Posted by: Gustavo at dezembro 7, 2006 09:12 PM
Tentei comentar mais cedo e não consegui. Enfim, repito: se não ao seu romance, que não li, ao menos a este post concedo a honra: overwritten and snobbish, indeed. ;)
Posted by: Larissa Reinprecht at dezembro 8, 2006 09:54 PM
(Oh, oh, but that's a good thing!)
Posted by: Larissa Reinprecht at dezembro 8, 2006 09:55 PM
Heh. Você me lembrou os encontros sociais dos empresários da máfia de medicamentos, na África, em O Jardineiro Fiel.
Posted by: Edd at dezembro 11, 2006 08:44 AM
"Semana passada eu trabalhei". é uma das melhores primeiras frases que eu já li :).
Um abraço,
Marcos
Posted by: Marcos Matamoros at dezembro 13, 2006 07:11 PM
mas pode ter certeza de que o que ela descreve é bem menos. :-)
abraço
Posted by: rodrigo at dezembro 14, 2006 10:47 PM
Rivaliza com a primeira frase do Kafka na Metamorfose.
Posted by: Adriano at dezembro 18, 2006 10:39 PM