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novembro 25, 2006
no volver
A única coisa pra que serve este Volver do Almodóvar é mostrar que latino por definição é um ser que descobre em algum ponto da vida que a mãe não é a mãe, é a tia, que a tia não é a tia, é a irmã, e que a irmã não é a irmã, é a empregada do vizinho que estava passando na rua e chamaram pra fazer parte da família. Pode ser um alemão, pode ser um japonês, mas se descobrir um dia que a mãe de verdade morreu no parto e que a enfermeira pegou pra criar, pode ter certeza que pelo menos migrar pra Los Angeles ele deve estar querendo.
A essa altura com certeza tem alguém aí pensando: "Viu? Quem mandou ainda ver filme do Almodóvar?". Amigos gays, ora. O "amigo gay" é esse personagem estranho que quando não te leva a boates cheias de gente sem camisa e uísque nacional com preço de importado, te convida pra ver o que alpinistas culturais chamam de cinema europeu (nada mais middlebrow do que "cinema europeu" como título de nobreza) em salas no centro com cadeira apertada e cheiro de maconha.
(O que ainda assim é melhor do que o cheiro de pipoca dos Arteplex de shopping, eu sei.)
Mas podem dizer "bem feito" que o filme é ruim mesmo. Aquele personagem da Penelope Cruz, Deus do Céu. A mãe batalhadora, a mulher de fibra. Quando penso numa mulher de fibra, a única coisa que me vem à cabeça é um talo de alcachofra.
Da Tia Paula eu até gostei, me fez rir. Difícil não achar pelo menos simpática a velhinha esclerosada que diz verdades constrangedoras pra todo mundo sem querer. Mas claro que o Almodóvar não aguentou uma coisa boa no filme por tempo demais, e a Tia Paula morre nos 20 primeiros minutos.
E tem também a história dum fantasma (que não é o da Tia Paula; eu não estou entregando o filme). Podia ser a melhor coisa em Volver: fantasma que se esconde em porta-mala de carro, que come sanduíche, que não atravessa parede. Tinha alguma coisa de oringinal ali - não é comum em ficção ver aparições sobrenaturais tão prosaicas (tirando em novela brasileira, em que espíritos com nomes como Cadeirudo e Mulher de Branco aterrorizavam cidadezinhas estuprando os habitantes em coretos da praça, pelo menos é disso que eu lembro dumas novelas dos 80's). E tem bons momentos de comédia quando empregam o fantasma num salão de cabeleireiro ilegal. Pelo menos por isso estava valendo, fiquei pensando.
No final, resolvem a história do fantasma dum jeito inesperado, mas sem graça. Só não conto como pra não acabar até com a surpresa, que eu sei que aquele amigo gay vai acabar te convencendo.
Posted by Rodrigo de Lemos at novembro 25, 2006 04:45 PM
Comments
diabo, e não é que meus amigos gays já estão fazendo de tudo para me convencer de que o filme é bom e eu preciso assistir? preciso ser forte e guardar o dinheiro do cinema para um livro de sebo.
Posted by: Olivia at novembro 25, 2006 01:40 PM
O Cadeirudo é da década de 90. "A indomada". E era uma mulher, céus! Apesar de que não ficava devendo em nada pros anos 80. Tinha duas luas na cidade, ora bolas!, duas!
E eu vou tentar manter distância de amigos gays até o filme sair de cartaz.
Posted by: Gustavo at novembro 25, 2006 03:51 PM
gustavo: tens o "dicionário globo de novelas"?
olivia: boa sorte no sebo; cinema arty é tão baratinho...
Posted by: rodrigo de lemos at novembro 27, 2006 11:20 AM
Só para dizer que "linkei" você.
See ya.
Posted by: Edd at novembro 27, 2006 05:43 PM
Ah, Rodrigo, não seja recalcado. É muito legal ir no Arteplex ver o filme do Super Homem com a gurizada dos coleginhos fazendo barulho com suas pipocas. Ou tu prefere a frescura de colocarem os teus Bibs numa sacolinha silenciosa?
Posted by: cleber at novembro 28, 2006 02:00 AM
Eu não tenho amigos gays.
Pelo menos que eu saiba.
Meus amigos ficavam dizendo que eu precisava de tratamento psicológico. Aí eu paguei um cara para matar todos eles.
(brincadeira)
Abraço,
Posted by: igor at novembro 28, 2006 11:32 AM
Merda. Agora vou ter que ir assistir o filme só pra gostar ainda mais deste post. "Quando penso numa mulher de fibra, a única coisa que me vem à cabeça é um talo de alcachofra." - enfartei.
Posted by: tiago a. at novembro 28, 2006 12:03 PM
tem razão, cleber. tão last weekend esnobar o arteplex.
só assim pra não tê-los, igor. isso ou fazer engenharia. (estou falando de assumidos.)
tiago: desculpa, foi sem querer.
abraço
Posted by: rodrigo de lemos at novembro 29, 2006 01:18 PM
Rodrigo, tu estás ficando muito embrutecido. Mas ainda tens tempo para fazer uma abertura para a subjetividade do outro e encontrar em ti o espaço feminino (veja lá o que vais pensar que essa expressão significa). No resto, great post, as usual, old top!
Posted by: Adriano at dezembro 1, 2006 08:49 PM