novembro 05, 2006
culpa do anestesista
Engraçado como tem gente que prefere viver no nosso século a ter vivido em alguma grande época de alguma grande civilização. E quase sempre pelos motivos errados: Roma não tinha água potável, falta de esgoto encanado no século XVII. Quer dizer então que dar tchau pro cocô é mesmo tão mais importante do que poder ver na estréia o Alessandro ou a Paixão de São Mateus? Vou me consolar puxando a descarga do WC enquanto o vizinho de cima ouve Alanis Morissette no banho.
No fim, talvez o seu tio militar esteja mesmo certo: conforto demais, além de enfraquecer, vicia. Evitar um incômodo vira a única coisa que importa, e a criatura faz qualquer coisa por ela com os escrúpulos dum cheirador de pó vendendo a máquina de costura da avó pobrinha. Também vira o único jeito de viver. Nunca me esqueço duma amiga muito chocada com um ensaio em que Montaigne dizia que a dignidade na prisão, na tortura e na doença era o objetivo mais alto de qualquer educação.
Mas o pior incômodo dessa obsessão com higiene e conforto é ela ser impossível de satisfazer completamente. De repente, não chega só ficar de pijama segunda de tarde vendo dvd: tem que ser numa poltrona reclinável, com o tecido certo, não muito abafado mas também não muito frio, e de preferência sem capitonné, que às vezes dá pra sentir as saliências nas costas. E o chocolate quente ter esfriado, uma mosca chata fazendo barulho na vidraça, um desastre natural enquanto a gente tenta prestar atenção na segunda temporada do Seinfield.
Tudo culpa dos anestesistas. Até um tempo atrás as criaturas amputavam pernas só no conhaque. Compare agora com o fiasco que você fez a última vez que bateu com o dedão numa pedra.
Por isso que quando falam mal da escola eu defendo. Quer dizer, claro que ficar ouvindo piada de professor popular e comer empada de bar é só uma chateação. Mas uma sala de aula bem que pode ser um campo de treinamento de ética estóica involuntário, principalmente se a criatura for um pouco misfit - ou gordinho ou bixinha ou um daqueles quatro olho de aparelho. Porque conseguir disfarçar humilhação enquanto trinta adolescentes tiram com a sua cara te chamando de Rolha de Poço ou de Robocop Gay, isso deve ter sido uma invenção espartana para ensinar dignidade a garotinhos depois de chicotear eles em grupo no Templo de Ártemis. Mas claro que nem ela vai sobreviver aos anestesistas. É só lembrar que hoje em dia as pedagogas estão todas muito empenhadas em acabar com a crueldade na escola e destruir a única coisa boa pra que ela serve.
(Texto escrito numa cadeira sem capitonné.)
Posted by Rodrigo de Lemos at novembro 5, 2006 11:35 AM
Comments
Posso trocar pelo chocolate em barra o meu "resfriado"?
Acabo de descobrir que você pôs um link pro meu blog aqui. Obrigado. ;D
Posted by: Gustabo at novembro 5, 2006 06:21 PM
conforto = fim da civilização
ei, ei, vou aproveitar a deixa pra agradecer o linque ali também.
muito obrigado, rodrigo.
Posted by: tiago a. at novembro 6, 2006 12:57 AM
Ótimo, ótimo.
Tem um conto do Veríssimo em que o personagem fica enumerando as vantagens da civilização moderna, dizendo coisas do tipo "como alguém podia viver sem sei-lá-o-quê", até que o filho do cara diz, jogado no sofá, "como alguém podia viver sem controle remoto?", pouco antes de ser atirado numa selva sem água nem biscoito.
Posted by: Luis T Ladeira at novembro 6, 2006 03:07 PM
O Paulo Francis sempre dizia que a coisa mais importante que ele aprendeu na escola foi o empurrão que levou no primeiro dia de um aluno mais velho. Ele caiu no chão, perdeu os óculos e os livros se espalharam por todos os lados. Num minuto, aprendeu que a vida não era lugar dos mais aprazíveis. Mas essas coisas acabaram. Hoje não deixam mais nem cantar Atirei o pau no gato, para não traumatizar as crianças
PS: Como as pessoas viviam sem Seinfeld? :)
Um abraço,
Marcos
Posted by: Marcos Matamoros at novembro 6, 2006 06:17 PM
Eu ia citar esse episódio do Francis, mas o Matamoros se antecipou. Ótimo post, Rodrigo -e obrigado pelos votos de "long live rock and roll" lá na minha cabana. Abraços!
Posted by: Ruy at novembro 6, 2006 11:33 PM
gustavo: de nada, não preicsa agradecer. :-)
tiago, não, a equação certa seria:
conforto demais > excesso de civilização > homem que gosta de ver sex and the city.
luciano: boa, não conhecia esta. abraço.
marcos, ruy: ia citar essa história, mas não encaixou no ritmo do texto. comentador bom é assim, faz o trabalho que o blogueiro não pôde.
abraços
Posted by: rodrigo de lemos at novembro 8, 2006 09:39 PM
JOHN: Sir,raul Tamisa a depasit cota de urgentza!!
SIR: Sow watt John, sow watt?
JOHN:Tamisa a inundat cartierul nostru!!!
SIR: Sow watt John, sow watt?
--enervat John se duce catre usa si o deschide... face o plecaciune si spune.....Sir, TAMISA!!!
Posted by: Bródi "Tom" Negão at novembro 9, 2006 01:14 AM
Não vou deixar comentários relativistas nem piadinhas políticas. Seria tão deselegante.
O post está ótimo.
Posted by: Adriano at novembro 9, 2006 08:01 PM