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novembro 29, 2006

"overwritten and snobbish"

Quero que os críticos falem mal assim do meu romance. Escrever bem depende tanto de escolha e deliberação que um bom romancista deveria premeditar até as críticas ao livro dele.

Terminei o romance hoje; agora vai ficar um bom tempo numa gaveta de carvalho francês. Tenho trabalhado desde abril mais ou menos en cachette, não falando dele aqui, mostrando só pra bem poucos lerem. O nome até agora é "Os Belos e os Bons" (kaloì kaì agathoì, o epíteto da aristocracia grega; não tem como explicar por que sem contar a história), e começa assim:

Vendo de longe, ninguém sabia dizer se aquele amontoado de prédios sombrios era uma hospital, um manicômio, um campo de concentração. "Universidade Federal de Pedras Verdes", só uma placa mesmo para não deixar dúvidas. Um pouco dos três, então.

Vejam que rápido que eu estou perdendo o pudor (mesmo assim, colei o trecho aí de cima me sentindo mais ou menos como uma freira pela primeira vez de maiô). A história é basicamente a dum jovem scholar de grego que, bonito demais para a profissão, deixa a cidadezinha dele para ser gigolô de senhoras em Porto Alegre. Não sei ainda se é um livro de aventuras, se é uma comédia de (maus) costumes; certamente uma cruza espúria de Noel Coward com Dinastia, um Sidney Sheldon highbrow.

Já me perguntaram quais escritores me influenciaram ou algo do tipo. Graças a Deus não me veio o nome de nenhum, que seria embaraçoso ficar citando gente que aparece em foto de revista cheio de livro atrás. Com todo o meu coração, respondi: "Cole Porter", mas daí insistiram que tinha de ser um escritor. Acabei falando na Danusa Leão, que além de escritora é mulher, brasileira e socialite, três grupos desprivilegiados que servem pra provar que apesar da futilidade calculada do romance, eu também sou neguinha.

Posted by Rodrigo de Lemos at 03:39 PM | Comments (11)

novembro 25, 2006

no volver

A única coisa pra que serve este Volver do Almodóvar é mostrar que latino por definição é um ser que descobre em algum ponto da vida que a mãe não é a mãe, é a tia, que a tia não é a tia, é a irmã, e que a irmã não é a irmã, é a empregada do vizinho que estava passando na rua e chamaram pra fazer parte da família. Pode ser um alemão, pode ser um japonês, mas se descobrir um dia que a mãe de verdade morreu no parto e que a enfermeira pegou pra criar, pode ter certeza que pelo menos migrar pra Los Angeles ele deve estar querendo.

A essa altura com certeza tem alguém aí pensando: "Viu? Quem mandou ainda ver filme do Almodóvar?". Amigos gays, ora. O "amigo gay" é esse personagem estranho que quando não te leva a boates cheias de gente sem camisa e uísque nacional com preço de importado, te convida pra ver o que alpinistas culturais chamam de cinema europeu (nada mais middlebrow do que "cinema europeu" como título de nobreza) em salas no centro com cadeira apertada e cheiro de maconha.

(O que ainda assim é melhor do que o cheiro de pipoca dos Arteplex de shopping, eu sei.)

Mas podem dizer "bem feito" que o filme é ruim mesmo. Aquele personagem da Penelope Cruz, Deus do Céu. A mãe batalhadora, a mulher de fibra. Quando penso numa mulher de fibra, a única coisa que me vem à cabeça é um talo de alcachofra.

Da Tia Paula eu até gostei, me fez rir. Difícil não achar pelo menos simpática a velhinha esclerosada que diz verdades constrangedoras pra todo mundo sem querer. Mas claro que o Almodóvar não aguentou uma coisa boa no filme por tempo demais, e a Tia Paula morre nos 20 primeiros minutos.

E tem também a história dum fantasma (que não é o da Tia Paula; eu não estou entregando o filme). Podia ser a melhor coisa em Volver: fantasma que se esconde em porta-mala de carro, que come sanduíche, que não atravessa parede. Tinha alguma coisa de oringinal ali - não é comum em ficção ver aparições sobrenaturais tão prosaicas (tirando em novela brasileira, em que espíritos com nomes como Cadeirudo e Mulher de Branco aterrorizavam cidadezinhas estuprando os habitantes em coretos da praça, pelo menos é disso que eu lembro dumas novelas dos 80's). E tem bons momentos de comédia quando empregam o fantasma num salão de cabeleireiro ilegal. Pelo menos por isso estava valendo, fiquei pensando.

No final, resolvem a história do fantasma dum jeito inesperado, mas sem graça. Só não conto como pra não acabar até com a surpresa, que eu sei que aquele amigo gay vai acabar te convencendo.

Posted by Rodrigo de Lemos at 04:45 PM | Comments (9)

novembro 22, 2006

os mais queridos

Quando o Cleber Correa me mandou este meme sobre os escritores de que desisti, fiquei em dúvida se era pra falar dos "não li e não gostei" ou dos "li até a metade e gostei menos ainda". Na dúvida, fiz um pouco sobre os dois, que desculpa pra falar muito bem ou muito mal de livros nunca é pouca.

Meus mais queridos:

1) David Foster Wallace, Thomas Pynchon and the likes para a categoria não li e não gostei. Não pelo tamanho dos livros; À La Recherche du temps perdu e Decline and Fall of the Roman Empire são dois dos meus preferidos. O problema é que o pouco que li deles era cerebral demais, sem um pingo de frivolidade, o que é tão desagradável quanto excesso de. Mas deve agradar meninos de faculdade que começaram a ler há pouco, pelo jeito.

Além disso, se Paul Valéry disse que o pensamento tem de estar na frase como a substância nutritiva no fruto, coisas como Gravity Rainbow devem ser um jantar com cápsulas de vitamina.

2) De todos nessa lista, P.G Wodehouse é o que eu menos desisti. Mesmo assim, as histórias naïf e um tanto repetitivas - de propósito, eu sei - de Carry On, Jeeves! não me fizeram escrever uma cartinha pro Papai Noel pedindo mais. Claro, é bom ter uns livros dele em casa porque as capas são legais, e recomendo usar expressões em inglês wodehousiano com os coleguinhas na hora do lanche. Mas, talvez por causa do meu gosto franco-afrescalhado, não me senti muito à vontade com o estilo: como assim, um livro em que nenhuma frase começa numa página e termina no fim da outra?

3) Julio Cortazar, primeiro porque eu tenho essa implicância com homem de barba. Segundo que fico longe de escritor metralhadora de absurdos. Começa aquilo de vomitar coelhinhos, de "Olha, pai, eu sou surrealista!", e eu tenho vontade de dar levantar os olhos do livro: "Tá bom, filho; só cuida pra não sujar o shortinho."

E então, um pouco porque agora é a minha vez de memeá-los, um bom tanto também para confirmar minhas suspeitas sobre o que eles execram, venho gentilmente por meio desta infernizar o Mauro do Diacrônico e o Marcos da Torre de Marfim.

Posted by Rodrigo de Lemos at 07:26 PM | Comments (16)

novembro 19, 2006

lee wiley

Nunca consegui conter um certo nojinho ouvindo indies dizerem que Velvet Underground nem se compara com a banda underground finlandesa que eles descobriram no Soul Seek, mas tenho de admitir que Lee Wiley empurrou Sarah Vaughan do meu mp3 player no espaço das cantoras americanas.

Você deve estar se perguntando quem é Lee Wiley, e agora eu vou olhar de volta com aquela cara de "HOW can I talk to you?". Lee Wiley foi daquelas cantoras de rádio que fizeram muito sucesso nos anos 30 e 40, mas que deixaram poucos discos de estúdio. Quarenta anos de carreira, e não mais que dez álbuns. Mas que álbuns! Foi ela a primeira a ter a idéia de gravar um disco só com músicas dum mesmo compositor; inventou desse jeito o songbook, que evoluiu até nos anos 50 dar naquelas obras-primas como as que Ella Fitzgerald fez com Gershwin e Cole Porter. Recomendo também A Night in Manhattan, que ela gravou com a voz muito rouca e muito sexy num comeback em 50, depois de ter desaparecido um tempo por achar que estava ficando muito velha e baranga e que singing includes a number of things aside from the voice; these girls who are trying to get up on the bandstand at forty years old, it doesn't make any sense to me. Eu também adoro a Elza Soares.

Se em disco a voz dela já soa muito bem, com a mis-en-scène ao vivo dizem que era ainda melhor. Lee Wiley tinha uma daquelas belezas estranhas, meio orientais (o material publicitário da época mentia que ela descendia duma índia com um missionário inglês), que, junto com a voz pequena e sensual, tinha o efeito que vocês imaginam nos homens. Uma criatura que esteve num concerto dela em Nova York descreve assim a platéia e a cantora: The men were clearly enchanted with this glamourous creature, lighting her cigarettes, pouring her champagne, laughing ever so delicately at her witticisms, and not a one paying the slightest attention to darling Bobby Short, singing Cole Porter tunes on a little upright over in the corner. E Richard Hadlock, numa carta para ela, perguntava: Lee, have you ever wondered why so many… from road-tough musicians to jaded pub-crawlers, act like kids on Christmas when they hear you sing?

lee wiley 2.bmp

Cliquem aqui pra lerem o artigo sobre ela na Wikipedia. E ouçam uma versão pra
Hot-House Rose, minha música favortia do Cole Porter - bem indie também isso, citar Hot-House Rose em vez de Night and Day, mas ando assim desde o meu primeiro All-Star.

Posted by Rodrigo de Lemos at 12:59 PM | Comments (6)

novembro 14, 2006

olhe para a lente da verdade

E confesse que você também gosta da Camille Paglia, como não? La Paglia se diz feminista e fala mal das mulheres; é professora de humanidades, mas odeia fanatismo culturalista; consegue construir uma sentença completa, mas publica Top 10 de hit pop como qualquer blogueiro miguxo. Também faz crítica de disco music ou do último álbum da Madonna como se fosse Debussy. O que é mais ou menos o que eu tento fazer, mas ao contrário: ouvir Debussy como se fosse Gimme Gimme Gimme (A Man After Midnight).

(Também fala mal da Susan Sontag, aquela sapatona pedante.)

Esses dias li um texto dela no Salon.com dizendo que os blogs estavam vulgarizando as palavras: Nowhere in blog pages does anyone pay attention to the individual word -- things are moving too fast. E fiquei pensando que tenho mesmo essa impressão dos blogs americanos, que a maioria (dos que eu descobri, pelo menos) são até bem escritos, às vezes com uma ou outra idéia original, mas sem pretensões de estilo. Em nenhum deles tinha muitos posts de ficção, por exemplo.

Já nos blogs portugueses e brasileiros que eu conheço, quando não escritos por familiares da macaca Chita, acho que os textos são ou querem ser um pouco menos evanescent (o termo é da Camille Paglia, não me culpem). Não que eles cheguem perto da Emily Dickinson que ela dá como parâmetro, que escrevia com dicionário etimológico do lado so that you have all this tremendous stuff going on within a single word - mas também duvido que tenha muito romancista de editora consultando o Aurélio toda hora por aí. Só me parece que os blogs daqui são literariamente mais pretensiosos - pelo menos tentam fazer graça, publicam um pouco de ficção de vez em quando, e se fazem um post linkando matéria ou texto dos outros, dificilmente fazem no seco, sem alguma piadinha infame. Talvez porque no Brasil tenha muito menos jornal ou revista pras criaturas mostrarem o seu talento, ou a falta de.

Existe uma pretensão parecida nos blogs portugueses. Como os que valem a pena tendem a publicar menos textos longos e mais aforismos, eles tendem também a cuidar mais com o estilo, escolher melhor as palavras. Até porque escrever aforismos obriga a isso que a Camilla Paglia fala bem nos poemas da Emily Dickinson, tirar o máximo de efeito dum mínimo de palavras.

(Que fique bem entendido, não estou tentando convencer Camille Paglia a escrever Break, Blow and Blog - Camille Paglia Reads 43 of the World's Best Blog Posts só com autores brasileiros, capaz.)

Posted by Rodrigo de Lemos at 04:30 PM | Comments (3)

novembro 11, 2006

quermesse do livro

Acabando a Feira do Livro, e já é o quinto ano que eu morando em Porto Alegre não vou. Quero aparecer no Guiness do lado do homem mais alto do mundo, da atriz pornô aquela que...

Não foi um grande esforço. Até livraria eu tenho evitado - entro na Cultura cuidando pra não me verem, quase como executivo com a secretária em motel. Porque essas campanhas do governo, essa gente do "livros são legais", não acho que elas tenham adiantado muito pra melhorar os leitores, mas pra fazer as pessoas terem esse respeito pelos livros que só tem mesmo quem não lê, isso elas conseguiram. Daí que um garoto que conheceu um ou outro clássico e fica sabendo que tu também te olha como se vocês fizessem parte duma coisa tipo uma seita, uma confraria. Se esbarro com alguém numa livraria, sempre tenho medo de a criatura pedir "desculpa, irmão."

Claro, mesmo que esse clima de confraria seja desagradável, não estou dizendo que não seja muito bom ter amigos que gostem dos mesmos livros. Só que é melhor conhecer eles assim, num lugar nada a ver - uma festa, um restaurante. E de preferência sem saber desses gostos estranhos, ir adivinhando aos poucos. Estava numa boate com um party animal quando ele deixou uma amiga surpresa falando com muita naturalidade de Jane Austen. Eu não fiquei tanto. Dava pra perceber que ele tinha lido os livros certos só pelo jeito de falar, quase como se escreve, e pelo jeito de escrever, sem pompa, quase como se fala.

(Talvez seja um ideal que nos últimos tempos se formou na minha cabeça que esteja me deixando tão chatinho. Alguém que tenha os contornos de pensamento, a maîtrise de style dum literato, sem nunca ter aberto um livro. O que é um ideal impossível como alguém saber os afluentes do Amazonas e a Fórmula de Báskara sem nunca ter pisado numa escola - e daí toda a graça.)

Posted by Rodrigo de Lemos at 05:31 PM | Comments (1)

novembro 09, 2006

h bomb

centerfold.jpg

Mais na H Bomb, revista da Harvard sobre sexo.

Posted by Rodrigo de Lemos at 10:25 AM | Comments (0)

novembro 05, 2006

culpa do anestesista

Engraçado como tem gente que prefere viver no nosso século a ter vivido em alguma grande época de alguma grande civilização. E quase sempre pelos motivos errados: Roma não tinha água potável, falta de esgoto encanado no século XVII. Quer dizer então que dar tchau pro cocô é mesmo tão mais importante do que poder ver na estréia o Alessandro ou a Paixão de São Mateus? Vou me consolar puxando a descarga do WC enquanto o vizinho de cima ouve Alanis Morissette no banho.

No fim, talvez o seu tio militar esteja mesmo certo: conforto demais, além de enfraquecer, vicia. Evitar um incômodo vira a única coisa que importa, e a criatura faz qualquer coisa por ela com os escrúpulos dum cheirador de pó vendendo a máquina de costura da avó pobrinha. Também vira o único jeito de viver. Nunca me esqueço duma amiga muito chocada com um ensaio em que Montaigne dizia que a dignidade na prisão, na tortura e na doença era o objetivo mais alto de qualquer educação.

Mas o pior incômodo dessa obsessão com higiene e conforto é ela ser impossível de satisfazer completamente. De repente, não chega só ficar de pijama segunda de tarde vendo dvd: tem que ser numa poltrona reclinável, com o tecido certo, não muito abafado mas também não muito frio, e de preferência sem capitonné, que às vezes dá pra sentir as saliências nas costas. E o chocolate quente ter esfriado, uma mosca chata fazendo barulho na vidraça, um desastre natural enquanto a gente tenta prestar atenção na segunda temporada do Seinfield.

Tudo culpa dos anestesistas. Até um tempo atrás as criaturas amputavam pernas só no conhaque. Compare agora com o fiasco que você fez a última vez que bateu com o dedão numa pedra.

Por isso que quando falam mal da escola eu defendo. Quer dizer, claro que ficar ouvindo piada de professor popular e comer empada de bar é só uma chateação. Mas uma sala de aula bem que pode ser um campo de treinamento de ética estóica involuntário, principalmente se a criatura for um pouco misfit - ou gordinho ou bixinha ou um daqueles quatro olho de aparelho. Porque conseguir disfarçar humilhação enquanto trinta adolescentes tiram com a sua cara te chamando de Rolha de Poço ou de Robocop Gay, isso deve ter sido uma invenção espartana para ensinar dignidade a garotinhos depois de chicotear eles em grupo no Templo de Ártemis. Mas claro que nem ela vai sobreviver aos anestesistas. É só lembrar que hoje em dia as pedagogas estão todas muito empenhadas em acabar com a crueldade na escola e destruir a única coisa boa pra que ela serve.

(Texto escrito numa cadeira sem capitonné.)

Posted by Rodrigo de Lemos at 11:35 AM | Comments (8)

novembro 02, 2006

mohammed.gif

mosmall2dg.gif

Site muito bonito só com imagens antigas de Maomé .

Posted by Rodrigo de Lemos at 07:53 PM | Comments (6)