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outubro 13, 2006
camp and proud of it
Desde pequeno, nunca entendi muito bem o que eu gostava tanto no clipe de Superfreak do Rick James, se era o canino faltando na boca dele, se eram as barangas fazendo coreografia de gatinha no fundo. Hoje, aos 25, a luz se fez, e descubro que é porque eu é que sou camp mesmo e adoro ver gente mal vestida dançando ridiculamente.
(Talvez seja por isso que eu sempre acabo a noite no Ocidente.)
Se bem que não sou só eu, e todo mundo que conheço tem um lado camp mais ou menos avançado. Aliás, muito difícil conseguir não gostar entre aspas de nada, de nadinha de mau gosto depois de anos assistindo tevê aberta - principalmente no Brasil, esta terra que, não satisfeita com Banda Calypso e Ney Matogrosso, resolveu importar Desireless e música italiana de cruzeiro, quatro coisas que eu também acabo adorando muito ironicamente. E sim, tu também; é só lembrar daquele teu amigo indie posudo, todo Morrissey e Lou Reed e erudição pop, dançando Festa no Apê na Pulp Friction com um sorrisinho de deboche entre um lado B dos Klaxons e outro do Black Rebel Motorcycle Club.
Agora, não que eu ache isso de ser camp menos embaraçoso por ser o mais comum. A torre de marfim deve mesmo ser mais digna. O problema é que ela só é mais digna com um detalhe: se a criatura já nasce nela. Tenho amigos de 20, 30 anos que cresceram só ouvindo Schubert, lendo irmãs Bronté, e pra quem o personagem de high brow cai muito bem. Só que eles fizeram anos de laboratório in natura pra encenar o erudito; não é o caso da maioria dos outros imitadores de Eliot, que conseguem no máximo ser uma versão hispânica do velho de piteira no Rocky Horror Picture Show. Por isso que poucas coisas conseguem ser mais constrangedoras do que gente fazendo alpinismo cultural, tentando escalar a torre de marfim. Ouço eles falando com muita pompa de Wagner e vejo por trás frases prontas de crítico musical exatamente como dá pra ver o fantasma do diretor ditando o monólogo prum ator ruim.
Quando seria muito mais inteligente rir do próprio mau gosto e não ficar fingindo que tu nunca dançou Be My Lover bêbado em festinha da Sogipa. Até porque, se depois dos doze, treze anos a criatura começou a conhecer os Grandes Tesouros da Humanidade, não é por isso que ela precisa fingir que nunca se divertiu com os pequenos lixos. Um pouco de camp, no fim, acaba sendo o único elitismo convincente pra quem é high brow mais por opção mais do que por criação na nossa querida amiguinha sociedade de massas.
Posted by Rodrigo de Lemos at outubro 13, 2006 04:44 PM
Comments
http://www.youtube.com/watch?v=Rar6MO9ybC0
Represália ao seu vídeo do Rick James!
Posted by: Pedro Sette Câmara at outubro 13, 2006 07:56 PM
"Mas lembrem-se que se vocês hoje podem olhar mais longe, é porque se apóiam nos ombros de gigantes."
http://www.youtube.com/watch?v=JTdo-WQXhfQ
http://www.youtube.com/watch?v=UvDaBfZPZ5A
Posted by: Felipe Ortiz at outubro 13, 2006 10:38 PM
Ah, Jane Fonda de gambá! Amo.
Posted by: Breno B at outubro 14, 2006 12:23 AM
o video do mc hammer me deixou com uma impressão que eu seguido tenho: todo mundo odeia os oitenta, mas os early nighties foram piores - aquelas roupas, o streetdance.
já o da lena philipsson me fez ter saudades dos early nighties. :-)
Posted by: rodrigo de lemos at outubro 16, 2006 12:49 PM
Rodrigo, você que é um rapaz estudado, esclareça-me algo: qual a diferença (essencial ou supérflua) entre "camp" e "kitsch"?
É que no meu tempo de faculdade falava-se em "kitsch"... E notei algumas semelhanças.
Desde já agradeço.
Posted by: Bródi at outubro 21, 2006 03:43 PM
kitsch é a sua vizinha de chambre e bobs que nem sabe que é kitsch. camp são esse monte de estudantes de comunicação que gostam das mesma coisa que ela e que inventaram esse nome pra intelectualizar o próprio mau gosto e poder ouvir latino com boa consciência.
gente que adora "festa no apê", mas com um sorrisinho de superioridade.
Posted by: rodrigo de lemos at outubro 21, 2006 04:32 PM