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outubro 30, 2006

trabalho de sopro strikes again II

David Bowie no Multishow ontem. Concerto bem mais previsível do que eu vi em São Paulo em 1997, quase um videokê - só clássicos pra cantar as letras junto e tal. Problema: as legendas traduzidas do Multishow. "Is it concrete all around or is it in my head?" (All the Young Dudes) virou "É tudo de concreto à minha volta ou é só na minha cabeça?"; "Pray and the heathen lie will disappear" em Loving the Alien virou "Reze e a mentira brutal vai desaparecer". Como se já não bastasse a idéia monga de legendar as músicas, o Multishow resolveu empregar definitivamente Trabalho de Sopro como tradutor.

Posted by Rodrigo de Lemos at 11:22 AM | Comments (4)

outubro 24, 2006

the wit and wisdom of claudiona

(in memoriam)

Em Porto Alegre, difícil alguém que tenha ido aos clubes certos nos últimos dez anos e que não conheça essa história; fora, talvez tenha chegado meio distorcida - isso se coisas parecidas não tiverem acontecido em outras cidades, com outras figuras estranhas. Aqui, aconteceu no Fim de Século, com a Claudiona. A Claudiona era a rainha dum grupo de bichas bizarras da cidade nos early nighties; trabalhava num salão fashionista que transformava o cabelo dos clientes em coisas parecidas com espanadores, faisões empalhados. Numa festa lá por 92, estava ela com um copo de uísque na mão no topo da escadaria do Fim de Século - e, como sempre nessas histórias, sob efeito de algum tranqüilizante com álcool - quando de repente ela desaba lá de cima e desce os bons dez degraus entre o primeiro e o segundo andar rolando. A festa pára; as pessoas olham apavoradas para aquele montinho de lurex imóvel no chão. De repente, ela começa a se levantar toda guenza, vai catando no copo os gelos esparramados, e, vendo as caras de pavor em volta: "Estão olhando o quê? Cada um desce a escada como quer, ora!"

Posted by Rodrigo de Lemos at 09:36 PM | Comments (4)

outubro 21, 2006

pequenas empresas, grandes negócios

Meu cartão de crédito pra ser cortado, e eu precisando de dinheiro. Quinta-feira fui à praia com uma máquina digital, ver se eu filmava alguém famoso transando no mar pra depois chantagear. A única celebridade que eu encontrei foi o Tatata Pimentel pegando jacaré em Mariluz numa pranchinha de isopor.

Daí fiquei pensando que seria legal abrir um restaurante italiano pra fazer grana. Ia se chamar Sociedade de Massas. Os garçons iam usar máscaras de carnaval com a cara dos membros da Escola de Frankfurt e o cardápio seria todo temático: rondelli à Horkheimer (enrolado e sem graça), Habermas no espeto (e assim realizar o sonho de alguns amigos desconstru). O pene à Adorno seria pequeno e murchinho, como eu imagino que seja o dessa gente que fica citando Dialética do Esclarecimento pra tudo.

- Mas que vinho eu peço com fusili à Walter Benjamin?

Vinho Canção, meu filho, e bem doce, que vinho que não deixa o beiço roxo já é fetichização da mercadoria.

O problema é que pra abrir um restaurante eu precisaria aprender a cozinhar e pra aprender a cozinhar eu precisaria dum curso e pra entrar num curso eu precisaria do que eu não tenho nem pra pagar a conta da Gaudi daqui a dez dias: dinheiro (também, com o que mais eu pagaria? Conchinhas em biscuit? Mau estilo, mau estilo). E talvez a relativa falta de dinheiro, somada à vontade de felicidade que, como todo mundo sabe, só o dinheiro pode comprar, seja a pior coisa dos 25 anos - tirando ter de andar de carona e não tocar as profundezas do ser. A criatura não acha mais graça em ficar bebendo vinho Garibaldi no meio-fio com um monte de punks pré-adolescentes, mas também não ganha o suficiente pra comprar um bom Cabernet. Aí, duas opções: ou Marcus James de padaria, ou dívidas. E, como a Mastercard está aí pra isso mesmo...

Inclusive, ando muito triste com o comportamento bárbaro dessas operadoras de cartão de crédito, isso de ficar cobrando clientes que não pagam. Não sei, elas deviam aceitar algum tipo de escambo pra casos assim. Qualquer coisa, estou trocando a minha irmã por mais um mês de crédito pra torrar tudo em bala Chespirito.

Posted by Rodrigo de Lemos at 04:38 PM | Comments (7)

outubro 17, 2006

sarabanda

E essas pessoas que dizem que filme lento dá sono, hein? Que será que elas fazem em exposições de pintura? Dormem de pé por que os quadros são muito parados?

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Aqui e aqui, dois posts muito bons sobre insultos. Espera que só agora eu também descobri este mais antigo.

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(Voltando aos filmes parados.)

Seguidores de Glauber Rocha podem até ser meio pedantes, mas ficar resmungando contra eles é só pedantice de outro tipo. Pura politicagem também: conheço pessoas que não estão nem aí pra esquerda ou direita e que gostam de Deus e o Diabo na Terra do Sol; já os que abertamente detestam... Digamos que se Glauber Rocha tivesse feito Terra em Transe pra tirar sarro de Cuba e dado entrevistas falando bem da UDN, eles também estariam dizendo "Se o Glauber Rocha fosse francês em vez de brasileiro!". Mas eu sei que eles vão dizer que não.

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E depois vêm dizer que não existem mais dândis.

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- Afinal, não foi o Faulkner quem disse que um terno de tweed valia a vida de dez mil velhinhas?

- Então quer dizer que num naufrágio, entre um terno de tweed e a minha mãezinha, o senhor salvaria...

- A sua mãezinha. - ele sorriu - Mas seria uma injustiça.

Posted by Rodrigo de Lemos at 07:51 PM | Comments (6)

outubro 13, 2006

camp and proud of it

Desde pequeno, nunca entendi muito bem o que eu gostava tanto no clipe de Superfreak do Rick James, se era o canino faltando na boca dele, se eram as barangas fazendo coreografia de gatinha no fundo. Hoje, aos 25, a luz se fez, e descubro que é porque eu é que sou camp mesmo e adoro ver gente mal vestida dançando ridiculamente.

(Talvez seja por isso que eu sempre acabo a noite no Ocidente.)

Se bem que não sou só eu, e todo mundo que conheço tem um lado camp mais ou menos avançado. Aliás, muito difícil conseguir não gostar entre aspas de nada, de nadinha de mau gosto depois de anos assistindo tevê aberta - principalmente no Brasil, esta terra que, não satisfeita com Banda Calypso e Ney Matogrosso, resolveu importar Desireless e música italiana de cruzeiro, quatro coisas que eu também acabo adorando muito ironicamente. E sim, tu também; é só lembrar daquele teu amigo indie posudo, todo Morrissey e Lou Reed e erudição pop, dançando Festa no Apê na Pulp Friction com um sorrisinho de deboche entre um lado B dos Klaxons e outro do Black Rebel Motorcycle Club.

Agora, não que eu ache isso de ser camp menos embaraçoso por ser o mais comum. A torre de marfim deve mesmo ser mais digna. O problema é que ela só é mais digna com um detalhe: se a criatura já nasce nela. Tenho amigos de 20, 30 anos que cresceram só ouvindo Schubert, lendo irmãs Bronté, e pra quem o personagem de high brow cai muito bem. Só que eles fizeram anos de laboratório in natura pra encenar o erudito; não é o caso da maioria dos outros imitadores de Eliot, que conseguem no máximo ser uma versão hispânica do velho de piteira no Rocky Horror Picture Show. Por isso que poucas coisas conseguem ser mais constrangedoras do que gente fazendo alpinismo cultural, tentando escalar a torre de marfim. Ouço eles falando com muita pompa de Wagner e vejo por trás frases prontas de crítico musical exatamente como dá pra ver o fantasma do diretor ditando o monólogo prum ator ruim.

Quando seria muito mais inteligente rir do próprio mau gosto e não ficar fingindo que tu nunca dançou Be My Lover bêbado em festinha da Sogipa. Até porque, se depois dos doze, treze anos a criatura começou a conhecer os Grandes Tesouros da Humanidade, não é por isso que ela precisa fingir que nunca se divertiu com os pequenos lixos. Um pouco de camp, no fim, acaba sendo o único elitismo convincente pra quem é high brow mais por opção mais do que por criação na nossa querida amiguinha sociedade de massas.

Posted by Rodrigo de Lemos at 04:44 PM | Comments (6)

outubro 10, 2006

criança esperança

- Mas, senhor, foi avisado que o ingresso pro show era um brinquedo.
- Querido, se eles não conseguirem brincar com isso - entrega o vibrador pro segurança e liga no máximo - não vão conseguir com mais nada.

(tchurum)

Posted by Rodrigo de Lemos at 07:06 PM | Comments (4)

outubro 07, 2006

lambateria tropical II

Estava lendo uns fragmentos do Bion - o poeta grego, por favor, não o charlatão da psicologia de grupo - quando tranquei numa frase:

méga kakòn tò ou dúnasthai férein tò kakón

(Ah tá.)

Não que a sintaxe fosse difícil, o vocabulário muito menos, mas aquele verbo férein, a alegria de qualquer leitor de grego. Férein é verbo irregular, com verbete de duas páginas no dicionário, e quer dizer mesmo levar, mas também pode ser trazer, carregar, sofrer, suportar, produzir. Fiquei um tempo em dúvida e acabei me decidindo pelo último. E a minha tradução ficou assim:

É uma grande mal não poder fazer o mal.

Reli a frase, achando o máximo. Que grande pensamento! Não poder fazer o mal. Se poupar do prazer de empapar o cabelo da professora de primeira série de cola não porque não se quer, por pena ou bondade, mas porque não se pode, pura fraqueza. Mas o pior é a falta dum prazer compensatório; nem o consolo de se achar bonzinho a criatura ia ter: nul ne mérite d'être loué de bonté, s'il n'a pas la force d'être méchant. Tinha um quê de Santo Agostinho, de La Rochefoucauld naquela frase...

Li pro meu ex-professor de grego a tradução, parando pra explicar toda a beleza que eu via nela. Depois de me ouvir, o coitado:

- Tudo bem, Rodrigo, mas férein não quer dizer "fazer" nesse contexto. - e depois de um monte de explicações cheias de palavras com mais de quatro sílabas que eu não entendi - A tradução mesmo é "É um grande mal não poder suportar o mal"...

Voltei pra casa pensando que ler textos em línguas difíceis pode ser um teste Rorschach com palavras - cada um escolhe sentidos no dicionário de acordo com o que pensa, ou o que nem sabe que pensa - e certo de que um tradução errada pode sem querer ser melhor do que muito original.

Posted by Rodrigo de Lemos at 01:02 PM | Comments (8)

outubro 04, 2006

vida de um poeta virgem

Se lamentava em estrofes sáficas, xingava o destino em alexandrinos heróicos.

Na noite de núpcias, descobriu enfim a redondilha maior.

Posted by Rodrigo de Lemos at 09:03 AM | Comments (1)

outubro 01, 2006

um ideal para a vida:


Ter todos os defeitos do excesso de dinheiro e nenhuma vitude que venha da falta.

(Porque é muito nobre morrer por um ideal, mas muito mais nobre viver por este.)

Posted by Rodrigo de Lemos at 02:42 PM | Comments (4)