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setembro 15, 2006

música de tia

Se um blogueiro chega e diz que gosta de Charles Aznavour você:

a) sorri com complacência

b) deslinca imediatamente

c) se abraça nele chorando baixinho de compaixão.

Só pra saber.

(...)

Tá bom, tá bom: eu acho Charles Aznavour chouette. Mesmo com aquelas orquestrações, mesmo com os corinhos fazendo shoobi-ra-ba em refrão. Podem achar brega. Eu acho brega, e pitoresco.

Je marcherai vers d'autres cieux, d'autres pays
En oubliant ta cruelle froideur
Les mains pleines d'amour j'offrirai au bonheur
Et les jour et les nuits
Et la vie
De mon cœur

Claro que sem orquestração pesada, sem corinho fazendo shoobi-ra-ba e com a interpretação mais contida é melhor. Emmenez-moi, por exemplo. Grande letra: um sujeito que trabalha no porto e fica vendo os navios chegarem, sonhando em fugir pro sul. Tem algo de L'Invitation au voyage de Baudelaire, e a letra é bonita sem metáfora barata ou filosofia de descornado. Tem também aquela coisa bem francesa de querer fugir da Europa e ir prum país exótico e ser assaltado no Bondinho.

Ils viennent du bout du monde
Apportant avec eux
Des idées vagabondes
Aux reflets de ciels bleus
De mirages

Traînant un parfum poivré
De pays inconnus
Et d'éternels étés
Où l'on vit presque nus
Sur les plages

Quase tudo também é bom em Trousse Chemise - um bosque na beira do mar, a história dum piquenique a dois que termina com o sujeito forçando a garota a dormir com ele. Claro que o letrista tinha de achar uma metáfora cafona pra sexo ("conjuguer le verbe aimer"), mas versos que compensam são o que não faltam:

On était partis pour Trousse chemise
Guettés par les vieill's derrièr' leurs volets
On était partis la fleur à l'oreille
Avec deux bouteill's de vrai muscadet

E o final da história:

On coupe le bois à Trousse chemise
Il pleut sur la plage des mortes saisons
On coupe le bois, le bois de la cage
Où mon cœur trop sage était en prison

Mas claro que isso é o crème de la crème de Charles Aznavour, e tem coisas bem piores. Os anos 80 foram, surpresa, especialmente insuportáveis, uma mistura de Edith Piaff com Roupa Nova: vocais dramáticos com tecladinhos aguados e bateria eletrônica. O brega mullets-calça de couro em vez do brega-pingüim de geladeira que ele fazia nos anos 60 e que se é tão ruim quanto, pelo menos é mais simpático. Ainda vão descobrir que o declínio da música de tia - ou a apoteose, em se tratando de cafonice depende - começou nos early 80's, quando a Yamaha teve a grande idéia de popularizar os teclados.

Posted by Rodrigo de Lemos at setembro 15, 2006 12:54 PM

Comments

Gosto mais do Montand - mas não acho que seja o caso de realmente *discutir* quem é melhor.

Agora, as versões dos anos 80 das músicas francesas feitas pelos próprios franceses...

Posted by: Pedro Sette Câmara at setembro 15, 2006 10:00 PM

Se algum blogueiro me dissesse que gosta de Charles Aznavour, eu perguntaria quem é Charles Aznavour.

Posted by: Gustavo at setembro 16, 2006 07:44 AM

os 80 na frança foram terríveis mesmo, pedro; nem françoise hardy se salvou. se bem que "voyage voyage" é genial in a queer way.

gustavo, dá uma olhada nos vinis da tua tia. :-)

abraço

Posted by: rodrigo de lemos at setembro 18, 2006 01:13 PM

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