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setembro 25, 2006

cansei de anti-brasileirismo

Daí, como eu não tinha mais nada pra fazer, resolvi botar uma peruca verde e amarelo e falar bem de poesia brasileira. Que até é bem simpática sim sinhô, tirando as tentativas do Manuel Bandeira e do Cassiano Ricardo de deixar ela mais brasileira - ou seja, mais tatibitate. Mas graças a Deus poetas só escrevem coisas que ninguém vai ler mesmo por pretensão e egocentrismo, e a Irene Boa Irene Preta é um evento que se repete só muito de vez em quando na poesia nacional.

(Talvez esse só de vez em quando já seja muito, mas se a gente for comparar com a freqüência da Irene Boa Irene Preta nos romances.)

Deve ter sido a mentira saudável de que poesia é especialmente difícil que fez menos gente escrever poemas como Jorge Amado romances (se bem que a mentira ruim de que verso livre é fácil pode me desmentir em um ou outro caso, mais ainda depois dos anos 70). Pelo menos teve gente estudando um pouco de métrica, tentando fazer umas metáforas decentes, o que é mais raro em romancistas, alguém que aprenda técnicas de escrever. Isso também deu no medo quase sagrado que as pessoas têm da poesia por aqui - o que pode fazer os próprios poetas às vezes descambarem prum barroquismo meio pegajosinho, é verdade, mas que no Brasil, em que tudo o que não é um pouco sagrado vira forró da Tânia Alves, pelo menos preservou a poesia duma simplicidade embaraçosa.

Também, talvez por causa desse medo de índio por ventilador, talvez por causa da própria poesia - que é simplesmente ruim se aquilo que o cara diz chama mais atenção do que os ornamentos -, o fato é que no Brasil se fez bem menos poemas engagés do que prosa engagée. Claro, sempre teve um ou outro poema politiqueiro nas coletâneas, mas é raro encontrar alguma que só tenha odes ao operariado ou à bandeira nacional. E as tentativas que eu conheço foram até bem razoáveis. Poucos poetas me entediam tanto quanto Carlos Drummond de Andrade - aquela timidez de coitadinho, aquela super-sensibilidade de colegial que apanha no recreio -, mas Rosa do Povo tem uns versos bonitos quando ele não exagera na piedade. E, quando os poemas engagés não eram tão bons, alguns poetas tiveram a decência de morrer antes de publicar eles, vide aquela ode ao Fidel Castro pelo Mario Faustino.

Gostar ou fingir que gosta de poesia brasileira pode afinal ser uma boa numa festa, num coquetel, quando vocês não quiserem mentir que lêem os romances mas quiserem levar pra cama alguém que adora literatura nacional. Causa também uma impressão melhor em quem está em volta - elogiar as duas ou três unanimidades do romance dá um ar tão literato wannabe. Uma vez o meu irmão abriu a porta do quarto enquanto eu lia Quincas Borba, e nem tive tempo de esconder embaixo do travesseiro e pegar a Playboy que eu uso pra disfarçar. Se fosse o livro do Mario Faustino, meu apelido em casa não seria agora Antonio Cândido.

Posted by Rodrigo de Lemos at setembro 25, 2006 02:26 PM

Comments

Acho que poderia fingir que gosto de Cecília Meireles pra conseguir a "menina que gosta de literatura nacional", mas prefiro falar a verdade: gosto de Mário Quintana.

Até mais, Antonio Cândido.

Posted by: Gustavo at setembro 25, 2006 05:29 PM

Felizmente eu tenho um oco na parede ao lado da minha cama onde guardo toda a minha coleção do Machado de Assis e do Guimarães Rosa. Fazer o que, né? Dizem que unanimidade é igual a lama. Viva a poesia marginar dus anus setentcha.

Posted by: Adriano at setembro 25, 2006 08:34 PM

Ah, sim, e cuida com o Machado de Assis, mesmo, se já estão te chamando de Antonio Candido. Mais um flagrante e começam a te chamar de Roberto Schwarz.

Posted by: Adriano at setembro 25, 2006 09:06 PM

Olá, é bom saber que escreves. Abraço,

Posted by: Ronaldo at setembro 26, 2006 11:48 AM

Já conheci um Caroço, um Chaveirinho, mas apelido de Antonio Candido e Roberto Schwartz, constrangedor, meus caros.

Ronaldo, como estás?

Abraço

Posted by: rodrigo de lemos at setembro 28, 2006 12:28 PM

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