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setembro 04, 2006
a prisioneira da virtude
Vou escrever um romance libertino usando os meus amigos como personagens. O nome é La Prisonière de la vertu. Como vai ser todo em francês e ninguém vai ler mesmo, estou postando aqui o resumo da história e quem dos meus amigos é quem. Os que não conhecem eles podem pular o próximo parágrafo e ir direto para o Tomo Primeiro; quem conhece pode pular também, que eu botei só abreviaturas, e erradas.
H. é a Grande Baronesa, que tem como valet-de-chambre o flanelinha do Van Gogh com uma peruca de rolinho. A Prisioneira da Virtude ia ser outra, mas coloquei a D.; fica mais bizarro, talvez por ela ser tão diferente do personagem. O partido da virtude é encabeçado por V. como o abade de Saint-Pierre. O jovem e belo Duque de Rocheville vai ser o D., exatamente por ele não ser nem jovem, nem belo. A. e E. ficaram como a dupla de castrati que faz versões barrocas de dance anos 90 numa gaiola de ouro. O personagem de Faustin o Libertino ia ficar para mim, mas como eu de culotes é das imagens que não quero ter, deixo para o R. mesmo.
A PRISIONEIRA DA VIRTUDE, ROMANCE EPISTOLAR
TOMO PRIMEIRO
Fête galante no solar da Grande Baronesa. Faustin o Libertino está atirado num canapé, entediado, se queixando para a maquiavélica Marquesa de Xanxerê de como são fáceis as mulheres na côrte. O huissier anuncia a chegada de mais dois convidados. Faustin o Libertino vê então cruzar a porta a Prisioneira da Virtude, a viúva mais frígida da França desde a Princesa de Clèves, acompanhada do irmão mais novo, o jovem e belo Duque de Rocheville. A Marquesa de Xanxerê comenta sugestivamente que ele já tem um divertimento. Os dois montam um plano secreto de sedução. Faustin o Libertino decide então partir de repente, pedindo antes o celular da Prisioneira da Virtude para comprar as cuiazinhas de chimarrão em biscuit que ela disse andar fazendo. Depois de ele ir embora, o abade de Saint-Pierre, que fingia tirara uma soneca numa bergère enquanto os dois conversavam, adverte a Prisioneira do perigo que estava correndo. O jovem e belo Duque de Rocheville sorri com malícia.
(Entram os castrati. Arranjo barroco para "Ain't love/ Ain't love a surprise?" do M People.)

Fête galante no solar da Baronesa
TOMO SEGUNDO
A Grande Baronesa ouve rumores de que, só nas duas últimas semanas, Faustin o Libertino tinha comprado cinco caixas de cuiazinhas em biscuit. Se sentindo misteriosamente aflita, ela envia por Justin o flanelinha do Van Gogh uma longa carta ordenando a Prisioneira a resistir ao conquistador. Depois, se atira na cama aos prantos.
Quando lê a carta da Baronesa, a Prisioneira da Virtude decide fortificar o espírito e o coração. Mas logo o seu valet-de-chambre anuncia Faustin o Libertino na sala de espera, e ela vai recebê-lo no boudoir. Como arma, começa a falar do conflito judeus-palestinos; o sedutor se atira de joelhos e, molhando o vestido dela com lágrimas falsas, confessa uma paixão incontrolável. Ela, impassível, continua analisando todas as ações do gabinete israelense desde 1967 até conseguir que ele vá embora. Depois, liga para a Baronesa e, contendo no peito uma angústia terrível, celebra o próprio sucesso. Ao ouvir as estratégias do sedutor, a Baronesa tenta conter o desgosto, mas cai desmaiada: ela também se apaixonou por Faustin o Libertino.
Passsam-se semanas com Faustin investindo sobre a Prisioneira; a Prisioneira buscando forças no abade e na Baronesa para não se entregar. Ela não sabe, mas as palavras de amor carnal do conquistador nos seus relatos fazem a Baronesa morrer de ciúmes. Por fim, num dia em que Faustin o Libertino envia à Prisioneira uma pistola d'água e um saquinho de risada como presente de galanteria, a Baronesa enlouquece de vez e sai pelas ruas de Paris imitando um relógio cuco.
Vem a publico a verdade: a Baronesa só dava conselhos virtuosos à amiga para manter ela longe do libertino. Escândalo nos salões. Rousseau e Vauvenargues choram num cantinho.
O abade de Saint-Pierre recolhe a Grande Baronesa no sanatório da abadia. A Prisioneira resolve se recolher também, dizendo que é para cuidar da amiga. Na verdade, tudo o que ela quer é abafar a paixão que crescia agora no seu peito por Faustin.
O jovem e belo Duque de Rocheville sorri com malícia.
(Entram castrati. Arranjo barroco para "Runaway, runaway/ Runaway and save your life.", do Real McCoy)

A Prisioneira da Virtude recebe uma carta de amor.
TOMO TERCEIRO
A Prisioneira da Virtude segue uma rotina devota na abadia. Acorda com o canto do rouxinol, distribui maçãs aos pobres no pomar, troca a sonda da Baronesa. O abade sorri vendo ela desempenhar esses deveres santos; a virtude parece salva.
Em Paris, Faustin o Libertino está aflito. A Prisioneira sumiu da cidade. A maquiavélica Marquesa de Xanxerê ri do fracasso dele.
Ele descobre por fim onde a sua presa se refugiou. "Nada pode fazer a minha vitória mais certa, ma chère!", escreve para a Marquesa.
E então, numa noite de sexta em que o abade de Saint-Pierre tinha saído para encher a cara no Adriano - na Paris do século XVIII ainda não tinham fechado o Adriano -, o libertino se infiltra sorrateiramente na abadia. Encontra a Prisioneira cândida e desnuda no claustro, rezando antes de dormir. Ela grita ao ver o sedutor entrando, tenta fugir pela janela; ele a toma nos braços. Naquela noite, a Prisioneira da Virtude sente o poder da luxúria no colo de Faustin o Libertino.
Mas ainda só metade do trato secreto com a Marquesa estava cumprido. Ele promete voltar na próxima sexta. A Prisioneira passa a semana seguinte num estado d'alma eufórico. Acorda tarde todo dia; no pomar, em vez de distribuir maças aos pobres, fica lendo Paul et Virginie. Até esquecer os remédios da Baronesa ela esquece.
Na sexta-feira, com o abade de novo enchendo a cara no Adriano, o jovem e belo Duque de Rocheville vem passar o dia com a irmã. Ao ir embora no fim da tarde, dá com o libertino entrando furtivamente por uma janela do corredor. Faustin sorri, não acreditando ter demorado tão pouco para encontrar sua verdadeira presa; Rocheville pisca o olho para ele, sempre dizia ter inveja da irmã por ela ter fisgado aquele gatão de meia-idade. Os dois somem num canto escuro do corredor.
Depois de o Duque ter deixado seus braços, e com o apetite ainda não satisfeito, Faustin vai até o claustro da Prisioneira. Encontra ela como na semana anterior, rezando desnuda e cândida. Mas desta vez, quando ela vira a cabeça, percebe que seu rosto está em lágrimas: rezava temendo que o amante não viesse mais. Faustin então a abraça pela cintura e faz a Prisioneira experimentar prazeres que ela jamais imaginou.
Depois, satisfeito e já meio entediado, tendo ela inerte e frágil nos seus braços, ele anuncia a novidade: "Não é prudente que nos vejamos de novo" e vai embora.
A Prisioneira então, percebendo que perdera ao mesmo tempo a virtude e o amante pela que a tinha trocado, só deseja a morte: sobe fora de si a torre da abadia. Lá também está a Baronesa, querendo morrer como ela depois de ouvir os gemidos de volúpia que vinham do claustro ao lado. As duas se confessam vítimas do mesmo amor e, na solidariedade das almas sofredoras, pulam de mãos dadas da torre, se livrando das torturas do coração.
Naquele mesmo momento, Faustin o Libertino está fugindo com o jovem e belo Duque de Rocheville para as terras da Marquesa de Xanxerê, como previa o plano secreto.
O abade, voltando de porre aquela madrugada, acha os corpos da Baronesa e da Prisioneira da Virtude na frente da abadia. Por fim, tendo percebido seu erro fatal, vira monge beneditino.

Faustin invade o claustro da Prisioneira da Virtude.
(Entram castratti. Arranjo barroco para "Do you believe in life after love?")
Posted by Rodrigo de Lemos at setembro 4, 2006 03:59 PM
Comments
E depois de tudo isso acontecer, Umberto Eco escreveu "O Nome da Rosa", nessa mesma abadia, investigando essas mesmas mortes.
Na época trataram do caso como se elas fossem dois homens, para não sujar o nome da abadia com a mácula do sangue feminino.
;D
Posted by: Gustavo at setembro 4, 2006 08:26 AM
"Sujar com a mácula" foi uma das expressões mais bregas que já escrevi. Não repare, por favor.
Posted by: Gustavo, novamente at setembro 4, 2006 11:28 AM
não se preocupe, gustavo: nada pior que "torturas do coração" e "gatão de meia-idade".
Posted by: rodrigo de lemos at setembro 4, 2006 12:29 PM