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agosto 20, 2006
amo muito tudo isso
"Porto Alegre change plus vite que le coeur d'un mortel".
Charles Baudelaire, Les Fleurs du mal
Fico sabendo que fecharam o banheiro de cima do Ocidente. Chocante, muito chocante. O banheiro de cima do Ocidente devia ter sido tombado pelo patrimônio histórico; quanta gente boa nos últimos 20 anos não cheirou até morrer, quantos pais de família não pegaram AIDS lá dentro? E tudo com a bênção de uma imagem de Cristo e uma de Maria... Sim, meus senhores, o Brasil é realmente um país sem memória.
E então vou correndo até a João Telles com a Oswaldo Aranha; numa festa em que estava todo mundo vestido como figurante de algum filme 60's do Antonioni, dou com a porta lá de cima lacrada, os banheiros novos no térreo. "É a via do progresso!", o Comendador Coutinho que mora sob a minha pia-máter começa a discursar. E fico contemplando os filisteus, embriagados pela felicidade baixa de enfim terem uma privada no banheiro, com a melancolia de Baudelaire passeando por Paris reformada. Nisso, a porta vai-e-vém com mola nova bate com força demais na cara duma bixinha que entrava dizendo "Ai, que tudi, banheiro novo!..." e ela cai desmaiada. Vou embora, pifiamente vingado.
São quase três da manhã. Decido voltar para casa - que fica no Iguatemi, ali do lado - a pé.
Vou caminhando pela Oswaldo Aranha - texto sobre boemia em Porto Alegre sempre tem que ter essa cena: alguém saindo dum bar sozinho e caminhando pela Oswaldo Aranha; se, às três da manhã duma madrugada fria a Oswaldo Aranha já tem um je ne sais quoi de desolação, agora, com essa lição sobre o desconcerto do mundo através do banheiro do Ocidente, me vem uma melancolia ainda mais romântica: as árvores do parque, os carros, mesmo o lixo na calçada me parecem mais belos exatamente porque sei que eles vão passar.
Mas também fico pensando que Porto Alegre é uma cidade filistina que deviam implodir inteirinha, de preferência sem evacuar os prédios; ao ver de longe a torre da Vivo, percebo que nem precisa muito de lixeiras aqui já que os arquitetos se encarregaram de fazer da cidade inteira uma lata de lixo, e que querer mais latas de lixo em Porto Alegre é querer que tenha uma lata de lixo dentro de outra lata de lixo e que essa lata de lixo tenha outra lata de lixo ainda menor, numa grande boneca russa com os cantinhos chanfrados e más proporções.
Paro então para ver os arranha-céus modernistas que apagaram casinhas coloniais do século XVIII exatamente como os banheiros novos do Ocidente apagaram uma coisa que eu não sei o que é. Me vem um verso do Drummond. Esse mesmo.
Na Protásio Alves, pego um táxi - até o Iguatemi a pé, bem capaz!
(Melancolia pretensiosa não resiste a uma tarde na academia.)
Posted by Rodrigo de Lemos at agosto 20, 2006 07:15 PM
Comments
Hohoho! (sem trocadilhos com P. Noel)
Este seu blógue é uma parada!
A propósito, sabes por que a Hello Kitty não tem boca?
Ora, porque ela fala com o coração. Hahaha! Desculpe a piada infame, mas foi a mãe de uma criança que loca lá na locadora que me veio com essa, e depois daquele bigodinho lá embaixo, não podia deixar passar!
Abraços!
Posted by: Rafael Reinehr at agosto 21, 2006 05:47 PM
fofo.
Posted by: rodrigo de lemos at agosto 23, 2006 10:29 AM