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maio 11, 2006
mei sub terras ibit imago
Não sei onde, não lembro quando, mas uma vez eu li alguém dizendo que o estilo ideal é conciso como um bilhete suicida. Na hora achei bonito; aí fui ler este blog e concluí que então eu estou longe do estilo ideal. Mas pelo menos também do suicídio.
(Deleuze não pode dizer nem isso.)
Mas claro, essa história de bilhete suicida é bobagem. O bilhete tem que ser conciso porque o suicídio já é eloqüente; mesmo numa hora dessas as pessoas têm medo de exagerar nas cores, graças a Deus. Literatura, não. Sem a exuberância certa nas palavras, uma história é uma coisa sem graça, cinza. E é só olhar pela janela pra ver que o estilo de um romance, de um conto, tem que ser um pouco eloqüente mesmo: a vida que eles descrevem já é em tom menor. A vida não se mata bonito, abrindo o Junker e enchendo a banheira de rosas como fez uma amiga deprimida da minha mãe. A vida fica vendo seriado de pantufa, esperando a crise passar.
(Aliás, por que será que quando alguém se mata a sua tia sempre fica me perguntando se não foi droga? Se fosse ela encontrando Catão moribundo no chão do quarto, certo que a sua tia ia abrir as pálpebras dele pra ver se o menino não tinha puxado um fuminho. Botar as tripas pra fora daquele jeito, é no que dá ouvir muito Ozzy.)
E tanto o suicídio tem uma eloqüência própria, menos ou mais agradável, que eu tenho os meus favoritos, exatamente como cartas de Cícero. O de Mishima teria sido bonito, se tivesse dado certo. O de Marilyn Monroe foi bom mas enjoou, como uma "Catilinaria". O meu favorito é o de Petrônio. Quando Petrônio soube que Nero tinha condenado ele à pena de morte, fugiu para o sul da Itália. Deu então um banquete para os amigos, que não sabiam de nada. Daí, pediu que dois poetas ficassem recitando poemas de amor frívolo - o que era o contrário do que se recitava pros suicidas da época, diálogos sobre a imortalidade da alma - e cortou os pulsos assim, de repente. Os amigos ficaram assustados, tentaram ajudar, mas ele disse que não, que queria morrer daquele jeito, ouvindo poemas de Catulo.
(Agora eu ia fazer um parágrafo mostrando como esse suicídio é fascinante. Só não faço porque ia parecer coisa de gótico no orkut.)
Posted by Rodrigo de Lemos at maio 11, 2006 04:47 PM