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abril 03, 2006
la ville quelconque
Se Monsieur Teste escolhesse uma cidade pra viver, escolheria Porto Alegre. Para quem vive no logis quelconque, la ville quelconque. Imagine uma cidade do mundo. Agora limpe mentalmente qualquer coisa que ela possa ter de pitoresco, de interessante: Lisboa sem o charme arcaico, o Rio sem o tropicalientismo kitsch. Porto Alegre. Porto Alegre é a típica cidade típica: um monte de prédio feio e de gente que não vale nada. Menos a minha mãe.
Quero crer que existe uma vantagem nisso tudo. Talvez um certo cosmopolitismo gauche: toda grande cidade do mundo no fundo no fundo é Porto Alegre, só com uma maquiagem diferente. Além disso, quem vive no lugar qualquer, vive em qualquer lugar. Num lugar melhor - porque é melhor. Num lugar pior porque a queda nem é tão grande: sair de Istambul para morar em Assunção do Paraguai, isso é como cair do último andar de um prédio de 50. Já vindo de Porto Alegre é como cair do terceiro, dá pra sobreviver, cara.
E não, não estou reclamando daqui. Estou é elogiando de um jeito peculiar esse nosso cosmopolitismo acidental. Não é que Porto Alegre não tenha nada de bom - tem, mas o que ela tem existe também em qualquer outra cidade grande: cinema, café, nigtclub com estacionamento cobrado. (O que é um alívio, por um lado: populações tropicais ou ribeirinhas ficam cantarolando marchinhas em patoá, cheios de futas na cabeça; populações de cidades históricas tendem a se embotar contemplando eternamente as ruínas da glória perdida.) Ontem à noite, por exemplo, saí pra caminhar ali por perto da Nilo Peçanha e percebi como eu amo cada shopping estrombótico, cada prédio pós-moderno, cafona mesmo, desta cidade. Também amo muito as sacadinhas chanfradas do prédio que em seis meses brotou ao lado do meu e me tirou a ventilação do apartamento.
(Também: a janela do quarto de um surfista de uns 20 anos veio cobrir a minha magnífica vista da torre do Iguatemi.)
Amo Porto Alegre como quem ama uma mulher manca. E que vê que ela é manca.
Posted by Rodrigo de Lemos at abril 3, 2006 08:06 PM
Comments
Lovely. ;)
Posted by: Olivia at abril 3, 2006 04:15 PM
olá, olívia.
Posted by: rodrigo de lemos at abril 3, 2006 07:09 PM
ahhhhgdhsdaasd------pof.
botei voce nos meus feeds.
lalala.
olivia não tem acento.
e não sei como não tinha te descoberto antes. fui fuçando outros posts. lovely, lovely. mas os corsetes me assustam. me assustam terrivelmente. terrivelmente me assustam.
na verdade, acho que nem vou conseguir dormir direito essa noite.
Posted by: Olivia at abril 3, 2006 09:51 PM
gee, a primeira vez que eu escrevi olivia foi sem acento.
para tu dormires de noite: sissi, a imperatriz, usava corsets. sissi, a imperatriz. tem coisa mais inofensiva que sissi, a imperatriz?
Posted by: rodrigo de lemos at abril 3, 2006 10:52 PM
Maravilha.
A Nilo é rica em prédios estranhos. E ali perto, no Bourbon Country, há uma irresponsabilidade arquitetônica jamais vista em qualquer outra parte.
Posted by: Sesti at abril 4, 2006 02:59 PM
Não conheço Porto Alegre e, pelo que li, conheço bem.
Acho que você deveria conhecer Genebra. É isso tudo , com mais cinza, mais dinheiro, mais velhos, mais bancos , mais frio,mais melancolia e um lago em lugar de um rio.. Uma espécie de queda para o alto talvez.
Posted by: Pimentel at abril 4, 2006 06:21 PM
cada vez que abre um bourbon novo, porto alegre fica mais feia.
mas, sesti, a maior irresponsabilidade arquitetônica da nilo é o penteado das peruas que fazem cooper aqui perto de casa.
Posted by: rodrigo de lemos at abril 4, 2006 07:17 PM
eu conheci genebra, pimentel. me senti em casa. e não por bwannabismo, não: se fosse assunção do paraguai eu também me sentiria.
as vantagens de morar em porto alegre.
Posted by: rodrigo de lemos at abril 4, 2006 07:24 PM
Porto Alegre é uma ótima cidade pra se ser aposentado. Depois dos 75, voltarei.
[]'s
Posted by: Rico at abril 7, 2006 07:10 PM