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março 24, 2006

em que tento impor fascistinhamente meu gosto aos outros

Cazzo, quantas vezes eu tenho de repetir que Álvaro de Campos não é o melhor Fernando Pessoa? Será que é tão difícil assim? Vamos lá, fecha este livro. Ó, tá dando I Love Lucy, ó. Vamos lá, coluna reta, peito pra frente, um, dois, um, dois. E vê se pára de me olhar com essa cara sofrida, recitando mecanicamente trechos de "Tabacaria".

Evidente que existe mais metafísica na Crítica da Razão Pura do que numa barra de Krot, sua besta.

No fim, não é verdade que o cânone é formado pelos que vencem numa sociedade, não. Pelo contrário. O cânone literário é formado pelos losers. Sabe aquele menino sensível que faz Letras e toma fora das namoradas e vai encher a cara na Lancheria do Parque, sabe? E sabe a gordinha carente que lê romance introspectivo como livro religioso? Pois é, é a eles que os escritores querem agradar. São eles que decidem o que vai vender um pouco menos pouco na Feira do Livro. São eles que adoram Clarice Lispector. São eles que adoram Adélia Prado. Dos estrangeiros, Camus e Dostoievski. E são eles também que vêem em Álvaro de Campos um profeta e não o que ele realmente foi: um modernista apenas mediano.

Tudo isso por causa da angústia. Apesar do que dizem os existencialistas, apesar dos franceses solenes e dos admiradores de Francis Bacon, a angústia embota a literatura. Principalmente nos leitores. Essas pessoas que sentem o Vazio, que se deparam com as Grandes Questões, elas são graves demais para a literatura. No geral, não querem arte - esse prazer frívolo com aliteração e metáfora e imagens bonitas: querem a Verdade. E aí os maus versinhos de

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer!

("Lisbon Revisited", Álvaro de Campos)

parecem muito, mas muito "mais profundos" (nunca "mais bonitos") do que:

Hóstia de assombro a alma, e toda estradas....

(Passos da Cruz, I, Fernando Pessoa)

Afinal, o que é o jogo de assonâncias "o"/"a" (assombro/alma; toda/ estradas) perto de falar da Grande Questão que é morte?

- Arte.

Aprendeu!

Tá, mas não pensa que vai escapar assim, hein. Qual é o teu Fernando Pessoa favorito?

(E se responder "Álvaro de Campos" leva uma concha na orelha.)

Posted by Rodrigo de Lemos at março 24, 2006 06:20 PM

Comments

Ah, Caeiro, longe. Com a adicional vantagem de evitar uma bifa na orelha.

Posted by: mauro at março 25, 2006 08:32 AM

eu também, mauro. ia falar bem dele na segunda linha do terceiro parágrafo, mas não fechou no ritmo da frase.

Posted by: rodrigo de lemos at março 25, 2006 08:31 PM

Gosto do ortônimo, de "Mensagem", da primeira metade do "Cancioneiro", de umas coisas do "Fausto", e de Ricardo Reis.

O resto é até meio Brokeback.

Posted by: Pedro Sette Câmara at março 26, 2006 08:54 PM

ricardo reis.

lembro de um professor de segundo grau filisteu dizendo que a poesia de ricardo reis era fria, afetada, preciosista, o ponto mais baixo do fernando pessoa.

morreu de câncer ano passado.

Posted by: rodrigo de lemos at março 26, 2006 10:46 PM

Pessoa lui-même. Com larga vantagem.

Posted by: ludovico__ at março 27, 2006 01:26 PM

Também fecho com o Pessoa-ele-mesmo.

Posted by: Ruy at março 27, 2006 02:17 PM

como assim, ninguém vai defender álvaro de campos?

então eu pus o meu quepe e o meu coturno e a minha suástica no braço por nada? ninguém vai me chamar de fascistinha porque eu disse que só pode gostar de sorvete de passas e álvaro de campos quem é retardado, é isso?

peçam para o zé rodrix comentar aqui, urgente.

Posted by: rodrigo de lemos at março 27, 2006 03:32 PM

You know what...just shut up!!!

by the way "habitude prise" existe.

Posted by: gabriel at março 27, 2006 03:36 PM

ah, o primeiro!

gabriel, you never let me down.

perguntaste então pros teus amigos aí sobre "habitude prise"? e notaste algum outro erro canalha - quero dizer, além do próprio poema?

se notaste, fala. quero começar mais uma bobagenzinha em francês, e não posso esperar para ser desencorajado.

saudades

Posted by: rodrigo de lemos at março 27, 2006 03:43 PM

Cacchio... finalmente leio alguém dizer cazzo em texto em português. Tô emocionada! ;))

Posted by: Salvietta at março 28, 2006 08:49 PM

whatever do you mean by "i never let you down"? but before we go any further nesse momento DS, me diz: o que tu achas do Mahler?

Posted by: gabriel at março 29, 2006 06:00 PM

salvietta: deve ter alguma coisa a ver com algum antepassado taliano.

gabriel: não sei, fui eu que escrevi, não conheço esta língua. ;-)

de mahler, conheço um pouco melhor a quinta. gosto do primeiro movimento, do segundo e do adagietto - aquele, isso mesmo.

abraço

Posted by: rodrigo de lemos at março 29, 2006 08:40 PM

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