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março 30, 2006

l'éloge de l'amour

Sabe quem está por trás de Meg Ryan & Tom Hanks e dos chaveiros I Love You e de Paul et Virginie e dos romances de Joaquim Manuel de Macedo e dos depoimentos melífluos no orkut e de "Total Eclipse of the Heart" e da depressão da sua tia desquitada e de Eu sei que vou te amar e dos posts confessionais de blogueiras carentes? Isso mesmo, aquela coisa que cristãos querem que seja universal. Quando cristãos me falam de amar todos os seres, fico imaginando o tamanho da música do Fábio Júnior que o amor universal ia dar.

O que desmoraliza o amor é isso, a quantidade de coisinhas glicosadas que já se fizeram em nome dele. Talvez porque dos sentimentos elevados seja ele o naturalmente mais acessível a todos, sem precisar de cotas. É a migalha de Ideal que diverte quem não tem muita imaginação. Aí, aquela secretária carente (sempre ela), que passou o fim de semana inteiro sofrendo pelo chefe grisalho porém casanova, chega no domingo à tarde e não se contém: descarrega o peso de suas paixões violentas em alguma coisa vagamente parecida com um poeminha chamado "Lágrimas de Dor".

Foi assim que Yates escreveu "Niver Give All Your Heart" num guardanapo.

O ruim do amor é exatamente isso: ele excita a imaginação de quem não tem muita. Talvez porque ele não viva fora dela. Amar o que não existe não seria mais que triste, se também não fosse redundância.

Posted by Rodrigo de Lemos at 03:06 PM | Comments (2)

março 27, 2006

trabalho de sopro strikes again

Trabalho de Sopro é o Mack the Knife dos tradutores de filme.

Sempre escondido, sempre pelos cantos, só dá pra notar que Trabalho de Sopro está por perto quando ele já assassinou algum diálogo na tradução.

A última vez que eu vi foi em A Place in the Sun. Naquela cena em que Elizabeth Taylor encontra Montgomery Clift (e tenho de me conter para não bater continência ao escrever este nome, Montgomery Clift) sozinho, jogando snooker na mansão do tio ricaço. Ela pergunta alguma coisa tipo hey, o que você está fazendo aí?, e ele: "Just fooling around."

Tradução: "Só dando uma de bobo por aí."

Outras vítimas de Trabalho de Sopro: Les Dames du Bois de Boulogne ("Je suis une fille perdue!", tradução: "Eu sou uma mundana!") e o clássico All About Eve , que virou A Malvada com uma foto de Bette Davis bem grande na capa do dvd, só pra nos enganar.

Posted by Rodrigo de Lemos at 11:49 AM | Comments (2)

março 24, 2006

em que tento impor fascistinhamente meu gosto aos outros

Cazzo, quantas vezes eu tenho de repetir que Álvaro de Campos não é o melhor Fernando Pessoa? Será que é tão difícil assim? Vamos lá, fecha este livro. Ó, tá dando I Love Lucy, ó. Vamos lá, coluna reta, peito pra frente, um, dois, um, dois. E vê se pára de me olhar com essa cara sofrida, recitando mecanicamente trechos de "Tabacaria".

Evidente que existe mais metafísica na Crítica da Razão Pura do que numa barra de Krot, sua besta.

No fim, não é verdade que o cânone é formado pelos que vencem numa sociedade, não. Pelo contrário. O cânone literário é formado pelos losers. Sabe aquele menino sensível que faz Letras e toma fora das namoradas e vai encher a cara na Lancheria do Parque, sabe? E sabe a gordinha carente que lê romance introspectivo como livro religioso? Pois é, é a eles que os escritores querem agradar. São eles que decidem o que vai vender um pouco menos pouco na Feira do Livro. São eles que adoram Clarice Lispector. São eles que adoram Adélia Prado. Dos estrangeiros, Camus e Dostoievski. E são eles também que vêem em Álvaro de Campos um profeta e não o que ele realmente foi: um modernista apenas mediano.

Tudo isso por causa da angústia. Apesar do que dizem os existencialistas, apesar dos franceses solenes e dos admiradores de Francis Bacon, a angústia embota a literatura. Principalmente nos leitores. Essas pessoas que sentem o Vazio, que se deparam com as Grandes Questões, elas são graves demais para a literatura. No geral, não querem arte - esse prazer frívolo com aliteração e metáfora e imagens bonitas: querem a Verdade. E aí os maus versinhos de

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer!

("Lisbon Revisited", Álvaro de Campos)

parecem muito, mas muito "mais profundos" (nunca "mais bonitos") do que:

Hóstia de assombro a alma, e toda estradas....

(Passos da Cruz, I, Fernando Pessoa)

Afinal, o que é o jogo de assonâncias "o"/"a" (assombro/alma; toda/ estradas) perto de falar da Grande Questão que é morte?

- Arte.

Aprendeu!

Tá, mas não pensa que vai escapar assim, hein. Qual é o teu Fernando Pessoa favorito?

(E se responder "Álvaro de Campos" leva uma concha na orelha.)

Posted by Rodrigo de Lemos at 06:20 PM | Comments (12)

março 22, 2006

campanha internacional pela volta do corset 2

corset9.jpg

"Pela volta da elegância ao guarda-roupa masculino."

Posted by Rodrigo de Lemos at 09:52 AM | Comments (1)

março 19, 2006

o amor é brega, e só petrarca não sabia

"Algumas pessoas têm da poesia uma idéia tão vaga que elas tomam o prórpio vago por idéia da poesia."
(Paul Valéry, filósofo e poeta.)

"Algumas pessoas têm do amor uma ídéia tão brega que elas tomam o próprio brega por idéia do amor."
(Pepita Waldez, minha amiga imaginária desde os 6 anos.)

Posted by Rodrigo de Lemos at 08:44 PM | Comments (4)

março 16, 2006

mer de roses para o homem do seu tempo!

Carlos Drummond de Andrade era um homem do seu tempo, e um mala. O mesmo para Sartre, para Fernanda Young, para aquele cantor com nome em latim errado. Se me convidarem para jantar com o homem do seu tempo, acompanhado da mulher batalhadora e da bicha que pegunta o signo, posso até ir, mas vou sedado.

Só não sei se é falta de imaginação, se é falta daquela coisa que tem um nome feio, o que faz as pessoas serem obsecadas pela própria época. Tudo bem o corpo ser condenado a ocupar um determinado tempo e espaço; já resistir em passar uma tarde imaginariamente num joalheiro art nouveau, num freak show fifties, numa taberna no interior do império otomano, isso sim é inaceitável. E, veja bem, nada contra a nossa época. Ela até que é legalzinha, tirando as roupas e o fato de que não se faz mais guerra com catapulta. Às vezes eu mesmo dou uma passada por aqui, em troca dum prazer que não existia antes: ecstasy, Alexander McQueen, disco do Orbital. Ou Google images - para achar fotos de jóias Lalique, de aberrações cromossômicas dançando twist, para achar pinturas do império otomano.

(Ia falar dum retorno à Confeitaria Rocco nos anos 40, só que aí teria o risco de eu acabar comendo a minha vó.)

Mas é que não ser um homem da sua época é uma questão, digamos assim, grosseiramente quantitativa. Imagine as diferenças entre os anos 20 e 30, entre os 50 e 60. São tantas que dá pra ver em que ano se passa um filme só pelo comprimento das saias. Agora, imagine as diferenças que existem entre todas as décadas de todos os séculos, desde que Assurbanípal conquistou a Pérsia (ah é?), desde que os arianos chegaram ao Hindustão. Pois é. Trocar tudo isso por 2006 é coisa de gente que toma rolhada na testa jogando dorminhoco.

Posted by Rodrigo de Lemos at 02:14 PM | Comments (2)

março 14, 2006

wasp waist 2

corsetboudoir_duo.jpg

Posted by Rodrigo de Lemos at 06:10 AM | Comments (0)

março 11, 2006

jogos educativos pelo futuro da nação!

Concordo quando pedagogas fofuchas insistem na importância de "aprender brincando". Claro que sim. História, ciência, moral, nada que não se aprenda num Pogoball. Respeito às diferenças, por exemplo, com um Jogo da Vida - Gay, não, Homo-erótico, em que se leia: "você entrou em relação homo-afetiva com um afro-descendente" para dizer que o cara deu prum negão em dark room de boate. Se o negão ainda por cima fosse surdo, ou tivesse alguma outra Necessidade Especial, a cartinha serviria também para as aulas sobre Mallarmé e literatura maneirista.

Ou um Banco Imobiliário: Revolução Cubana - na verdade um Banco Imobiliário comum, só com um Paredón antes do fim do jogo. Poderia ter também Batalha Naval: Judeus X Palestinos:

"5B: Você explodiu uma pizzaria!"
"2A: Você errou o alvo, mas acertou um menino desnutrido chamado Yamammoud."

Porque o método funciona. Eu, por exemplo, passei a gostar de Literatura Inglesa fazendo telefone sem fio com monólogos de Shakespeare. O monólogo de Shylock:

"I am a Jew. Hath
not a Jew eyes? hath not a Jew hands, organs,
dimensions, senses, affections, passions? fed with
the same food, hurt with the same weapons, subject
to the same diseases, healed by the same means,
warmed and cooled by the same winter and summer, as
a Christian is? If you prick us, do we not bleed?
if you tickle us, do we not laugh? if you poison
us, do we not die?"

virava "Gimme! Gimme! Gimme! (A man After Midnight)" já na metade da roda. E no final:

" I'm a Scatman!
Pi-pa-pa-ra-pô
Pi-pa-pa-ra-pô
Para-para-para
Pi-pa-pa-ra-pô
Pi-pa-pa-ra-pô"

Quando alguém trazia uma garrafa de vodka, saíam traduções do Ivan Junqueira.

Posted by Rodrigo de Lemos at 03:54 PM | Comments (1)

março 08, 2006

dixit mihi vox dei

E hoje de madrugada uma luz etérea entrou pela janela do meu quarto, e uma voz grave de Cristo em vinheta do SBT ("Pai...") me chamou de volta ao bom caminho - "Não aceitai aquela turma de Francês Intermediário" como se fosse um dos Mandamentos. Depois vêm dizer que o bom pastor não olha por cada ovelhinha do rebanho.

Ou talvez tenha sido o daimon da mundanidade: aquela voz que nos livra de empregos com horário fixo, que diz se uma festa é boa só pelo flyer. E sim, eu ouço a voz dele bem aqui, dentro do meu peito cheio de sentimentos castos. Oh, século filisteu, que não me dá iates e roller-girls nuas e uma pensão do Estado para eu tirar da escuridão tantos homens perdidos, tantas almas virtuosas presas em repartição! Juro que dava um gang bang beneficiente por mês, se o problema for caridade.

(É uma idéia para as velhinhas luteranas do meu bairro. Chá beneficiente, jantar de casal, tudo tão out.)

Mas tu, leitor infiel, desfaz esse sorriso incrédulo! Porque sim, ser sustentado é questão de vocação tanto quanto literatura, quanto vida monacal. Se todos os seus amigos ganhassem pensão e férias vitalícias, metade enlouquecia. Talvez uns 25% se matasse depois do primeiro ano. O resto ia arranjar uma ocupação semi-escrava, tipo, passar as tardes fazendo biscuit. Ou escrever romances.

Trancar o espírito errado numa vida de playboy é como tentar fazer de Michael Douglas um monge abstêmio.

Posted by Rodrigo de Lemos at 09:52 PM | Comments (3)

março 06, 2006

wasp waist

mendes2.jpg
Mme. Catulle Mendes, filha de Théophile Gautier, última amante de Richard Wagner e 23" de cintura, com o corset.

Posted by Rodrigo de Lemos at 03:48 PM | Comments (0)

março 03, 2006

mahler não rola

Um tom a se evitar, nos blogs e na vida, é aquilo de quero-parecer-menos-culto-do-que-sou. Você sabe que a criatura passa as noites lendo Vico, ouvindo Mahler, mas quando ela escreve chama cigarro de "crivo", um amigo de "pinta". E fala que a distinção entre nômeno e fenômeno "não rola", caros senhores, "não rola"!

O que não passa de um pedantismo a mais na lista. Se os pedantes do século XIX eram décor vivant pros ricos, os de agora imitam office-boys. São o Conselheiro Acácio, o Monsieur Homais da marmita, do vale-transporte a um real.

"Coloquialismo forçado é a pedantice da naturalidade."

(Já deixei até entre aspas pra você copiar e mandar pros seus amigos do Orkut. Só não se esqueçam dos créditos e do comentário "Genial!". Ou "Afudê!!!", dependendo da aba reta.)

Posted by Rodrigo de Lemos at 11:52 AM | Comments (1)

março 01, 2006

jaspion vs. kilza

Cenas do próximo capítulo:

men in pain.jpg
"Conseguirá o nosso herói se livrar dessa enrascada?"

Posted by Rodrigo de Lemos at 04:59 PM | Comments (4)