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janeiro 27, 2006

urbem quam dicunt Romam

Cansei de comparações entre privilégios de aristocracia e privilégios de parlamentares brasileiros. Como se na bancada do PTB fossem todos heróis militares, todos Aquiles. Se Tétis perguntasse a Severino Cavalcanti o que ele prefere, uma vida longa e obscura ou uma curta e cheia de glória, Severino certamente escolheria um latifúndio cheio de bóia-fria e um pote de rapadura.

Essas gafes têm uma causa: ninguém mais entende o que é uma aristocracia - e, logo, a história da humanidade até anteontem. Por exemplo, este post sobre Roma do 2 Blowhards; aliás, o blog deles é meio jukebox argumentativa - insira uma moeda e ouça uma argumentação impecável sobre o ponto de vista republicano quanto à política de impostos americana durante a Guerra ao Terrorismo -, mas às vezes muito bom. O post do Blowhard descreve Roma como uma sociedade perversa, cita um monte de especialistas falando sobre a economia da República e o espírito marcial dos aristocratas e do Senado, mostra que essa brutalidade não se dirigia só contra os inimigos, mas também contra os próprios romanos: nas escolas, nas famílias, nas legiões. Até aí, nada de errado; são fatos que nem Gibbon nega ou esconde. O problema é que para o Blowhard isso, que ele chama barbárie, faz dos romanos um povo não tão civilizado quanto se acredita - como se a brutalidade fosse um "apesar de" na história de Roma.

(Agora eu vou tomar sol e deixo no meu lugar uma jukebox argumentativa. Já volto para apertar no "publish".)

Acho que o Blowhard aí é um desses espíritos sérios, laboriosos, amolecidos por um certo cristianismo bonachão - ou talvez pela democracia, o humanismo de estábulo. Roma, como qualquer outra grande civilização, só foi realmente uma civilização e só foi realmente grande porque foi brutal (ou bárbara, como prefere o Blowhard). E apesar de ter sido brega lamentar uma conclusão dessas com furores de moralidade efeminada e esquerdistinha, Walter Benjamim estava certo: civilização e barbárie não são simples opostos. É só pensar no Império Chinês, no Islã medieval, na França da Belle Époque, povos que criaram grande arte, grande filosofia. Para isso, precisavam de meios materiais: concentrar riqueza. Para concentrar riqueza, era necessário se expandir, dominar o povo ao lado - às vezes nem tão ao lado assim, como no caso da França e da Inglaterra. E, para dominar o povo ao lado, provavelmente tivesse vantagem a sociedade mais inteligente, mais organizada (os 40.000 macedônios, com falanges e disciplina, vencendo uma nuvem caótica de 200.000 persas), mas a brutalidade com certeza não devia contar contra. No fim, se a civilização é sempre tão cruel e parasitária, viva o parasita. Afinal, alguém tem de ser escravizado no Vietnã para que outros tenham tempo e dinheiro para inventar o cinema, conceber o tempo como devenir, escrever "À la Recherche du temps perdu".

O que o Blowhard diz - ou vai dizer no próximo post, esperem - é que Roma caiu porque os romanos eram brutais não só com outros povos, mas também entre si. Pode ser. Mas eles também triunfaram por isso. E a vitória justifica a crueldade das instituições romanas com os cidadãos: foi nelas que os romanos aprenderam como se comportar com os povos inimigos. Tanto a educação estava certa, que venceram.

O único problema político e moral realmente importante para mim é escolher o que é melhor: uma sociedade aristocrática - desigual e um tanto bruta, na qual alguns indivíduos se desenvolvam tanto que saiam por aí atrás de feitos heróicos, conquistando a Pérsia com micro-exércitos -, ou então outra que seja uma Grande Mãe provedora de conforto e igualdade para os filhinhos eternamente insignificantes. Conforme a opinião política de alguém se aproxima ou se afasta de um desses extremos, mais ela tende a admirar ou recriminar Roma ou o Ancien Régime ou qualquer fato histórico de antes de 1789. E, já que uma das tendências do verão 2006 é a de blogueiros darem sua definição pessoal de tendências políticas, mais ela tende à direita ou à esquerda.

Posted by Rodrigo de Lemos at janeiro 27, 2006 02:09 PM

Comments

Moço, que a civilizaçao é cruel, que todo Estado tem algo de totalitarismo, tudo isso é temática velha. Agora, nao confunda os meios com os fins. Ninguém se propoe a civilizar com o objetivo de sair por aí barbarizando. Ou seria você uma exceçao?

(é justamente o contrário, idiot: me parece que para civilizar é preciso sair por aí barbarizando. o que talvez torne os nossos contemporâneos, tão pudicos quanto à - vá lá! - bárbarie, se não menos civilizados, quem sabe decadentes. abraços.)

Posted by: idiot at janeiro 28, 2006 03:24 PM

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