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janeiro 30, 2006

e o que seria de nós sem o marcos frota não é mesmo, minha gente?

Não sei quanto a vocês, mas eu adoro lugares chatos. Quanto mais chato é o ambiente, mais doentia é a minha imaginação. Um colega pedante começa a discorrer sobre a relação metrópole-colônia na Europa do século XVII, e eu fico imaginando a maneira mais divertida de decapitar ele. Certa vez inventei uma caneta que disparava um nylon bem fininho em volta do pescoço da criatura e se prendia ao quadro negro. Eu dava um puxão, e a cabeça do chato rolava na hora, nem deixava ele acabar o terceiro "se bem que é verdade...". Q. deve ter criado o acento com ejetor de James Bond durante uma aula de Cultura Portuguesa na UFRGS.

Formaturas, então. Não consigo pensar num melhor momento para ser escroque, encher a cara de whisky, flertar com quem não se deve. Amigos me convidam para recepções, especificando de forma mui cristã não ser necessário ir à cerimônia, e mesmo assim eu não perco uma: é sempre um prazer comprar garçons no bar enquanto uma voz longínqua de chato lê o "Juramento de Seriedade do Dentista", or something.

Além disso, tem o interesse científico. Passo cerimônias inteiras de lupa, observando padrões de comportamento na multidão como quem estuda a excreção dos moluscos. Até uma formatura semana passada, por exemplo, nunca tinha notado que existem modas nos gritinhos de alegria. Mas é verdade: há uns dez anos atrás era "WWWWOOOOOWWWWW". Depois, na minha época de segundo grau, colegas faziam "AAAAAÊÊÊÊ" quando a aula acabava mais cedo. E agora é o "U-HUUU"; o secretário chama a formanda Francielle Bocaiúva, e a família da Francielle, junto com os amigos da Francielle, e os vizinhos da Francielle, que vieram todos lá de Vacaria só para ver a Francielle segurando o canudo por ter completado essa nova etapa de amadurecimento pessoal, levantam ao mesmo tempo, aplaudindo e jogando confete: "U-HUUUUUU!". Minha hipótese sobre o atual ciclo do "U-HUUU!" foi confirmada no orkut. É só ver na comunidade do Jack Johnson; 8 entre 10 dos posts começam com "AE GALERA U-HUUUU", e um convite para luau em Imbé.

Mas, como eu disse, tenho tão mais imaginação quanto menos interessante é o ambiente. Aquela formatura, por exemplo, foi a minha soirée no Hotel dos Guermantes: me veio inspiração para um livro. Um livro que iluminasse um lado até agora inexplorado da experiência humana: um livro que estudasse o uso que cada época faz das vogais para expressar emoções simiescas. Uma História Ilustrada do Gritinho, exatamente como se faz com roupas, com mobiliário, com modos de produção. Já recolhi material suficiente para fazer algumas distinções finas: sob Tibério, o romano médio chamava os amigos para luau com um "ILÊÊÊ"; já nos primeiros anos de Nero, a consoante líquida caiu entre as vogais, e a forma evoluiu para um "IÊÊÊ". O que confirma duas teses básicas da linguística histórica: 1) a língua está em constante mudança, e 2) uma forma pode ser extinta e retornar com muito mais força anos depois. Basta lembrar que o "ILÊÊÊ" voltou durante os anos 90 na Bahia e atualmente é a forma dominante de linguagem entre os nativos daquela região, como atestam as músicas da Banda Cheiro de Amor.

Enfim, inspiração não me faltará, e Marcos Frota é o meu pastor.

Posted by Rodrigo de Lemos at janeiro 30, 2006 03:46 PM

Comments

Rodrigo, um obséquio. Tu sendo um menino viajado, com certeza já tiveste o desprazer de constatar a existência de uma epidemia que se alastra a fio de pólvora pelo mundo: turistas japoneses. Que tal fazeres prova d toda a tua mordacidade escrevendo um post sobre essa praga?

Posted by: Gabriel at janeiro 30, 2006 09:57 PM

mas eu já fiz, minha querida fraulein. clica no meu nome, clica.

saudades

Posted by: rodrigo de lemos at fevereiro 6, 2006 02:56 PM

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