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janeiro 16, 2006

anabela flores, ou a compulsão à repetição

Rodaram a manhã inteira. Três bairros vistos, revistos, revirados, e nada. Nenhum imóvel com mais de três dormitórios; quando muito, quatro. A única casa com anúncio de cinco quartos tinha infiltração; além disso, o quinto quarto só podia ser a gaiola de hamster guardada na área de serviço. “Inferno de classe média que não faz filho. É no que dá falta de religião.” O corretor tinha súbitos acessos de religiosidade ortodoxa quando uma comissão ameaçava não sair.

No mais, estranhava aquela mulher - meia-idade, sem sexo aparente e professora de espanhol - querer uma casa de cinco quartos: filhos? não; marido? tão menos; professora de espanhol! Deixou ela em casa depois do meio-dia, e a suspeita de negócios em prostituição só o abandonou quando ele lembrou seu aspecto assexuado. "Clínica de aborto, quem sabe."

*

Depois do banho quente e do almoço um pouco menos, Anabela Flores se deitou. Não conseguia dormir; um desejo louco a atordoava, e ela só pensava numa casa maior e em mais conforto para os seus bichinhos. Se levantou de um salto: “Está na hora de alimentar eles.” E calçou suas pantufas encardidas, decoradas com carinhas sorridentes de Isabel Allende.

Abriu o porão: vinte e cinco Jude Laws estavam em seus beliches triplos, arranhando móveis com as unhas compridas, jogando tênis com o conteúdo dos seus penicos de areia. A algazarra foi grande ao vê-la; um deles rasgou seu vestido de chita; outro arrancou sua correntinha de Nossa Senhora, e todos só se acalmaram quando Anabela jogou pra eles um garrafão d'água e um saco de Whiskas.

Foi então à despensa; queria ver como passavam os Mastroiannis. Estes já estavam na adolescência; fumavam cigarros fininhos e organizavam reuniões dançantes ao som de Rita Pavone. Olharam para ela com indiferença, insultaram-na uma dúzia de vezes - o que ela achava lindo em italiano -, e receberam também a sua ração.

Depois, distribuiu Whiskas ao 22 Paul Newmans da lavanderia. Também se forçou a ir até um fosso no canto do terreno onde se arrastavam sete Franciscos Cuocos de cueca samba-canção. Jogou o saco de ração o mais rápido que pôde; enjoava com o cheiro de nicotina.

Entretanto, uma idéia não lhe abandonava durante os últimos meses. Neste dia, especialmente, tinha a testa suada, as mãos trêmulas, as unhas dos pés cravadas nas solas das sandálias; ofegava de desejo. Por que não fazer mais um, só mais um desses? Mas devia se conter, esperar a casa maior, os cinco quartos. Resistiu algum tempo. No fim, porém, o impulso a repetir aquele prazer bizarro sempre a vencia. Correu até a estufa, tirou raspas de um dos umbigos secos - antes em fã-clubes femininos, agora ali guardados -, misturou com leite, deu uma mexida e pronto: um Matt Damon em idade adulta estava à sua frente. Não precisava nem de açúcar.

Era o primeiro de uma série de 28 Matt Damons a morar no quinto quarto da casa, logo que ela a comprasse.

Posted by Rodrigo de Lemos at janeiro 16, 2006 07:36 PM

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