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dezembro 26, 2005
problema de corte e costura
O que me impede de ser cristão é exatamente o que me impede de ser esquerdista: desconfiança quanto à piedade.
Toda pessoa digna de piedade não o é por mais de cinco minutos. Cinco minutos é o tempo que ela resiste até fazer alguma coisa por que mereça raiva. Mulheres se descobrem traídas e logo depois estão com a maquiagem borrada, atirando cinzeiros nos maridos; furacões arrasam casas de pobres, e eles saem por aí estuprando, cantando rap, saqueando supermercados por bonecas da Beyoncé. Mesmo Cristo voltou dias depois da crucificação, cobrando a humanidade inteira por um favor que ninguém pediu. Talvez só por ser o Verbo feito Carne - sim, porque contraditoriamente e por capricho creio que ele era - o tempo em que mereceu piedade durou alguns dias a mais que cinco minutos.
Os motivos por que o infeliz tenta provocar raiva depois de compaixão podem ser vários: o humilhado se alegrar ao humilhar; a reação a uma crueldade ser mais cruel que ela própria, ou ainda todos saberem, e nem sempre de forma muito consciente, que a raiva rebaixa menos do que a piedade: acabam preferindo a primeira. Já quem busca compaixão, a busca como uma arma - o abandonado quer ao menos pena quando já não provoca amor, etc.
(Ah, também a superioridade de velhota que experimenta aquele que se compadece.)
Sentimentos desse tipo - ter e provocar pena, além do impulso a preferir raiva quando finalmente a conseguimos - sempre me parecem pouco nobres. O problema começa na própria palavra: compaixão - este "cum" do latim, que indica partilha, companhia e logo uma certa promiscuidade moral. Quem se compadece, "padece" junto, divide o sofrimento com o outro, o que não é muito mais higiênico do que dividir um cotonete, um Tampax - eu ao menos nunca empresto o meu e não recomendo, gurias.
Mas, ao contrário da maioria, me orgulho de não ser esquerdista e me envergonho um pouco de ser não-cristão. Me envergonho porque, se não ser cristão me poupa da cobrança por piedade (que no meu caso seria maçante e inútil), ao mesmo tempo me priva de aproveitar totalmente a beleza dos mitos e da teologia cristã: a Idéia Suprema, a virgindade de Maria, o Verbo feito Carne, coisas em que não sei por que até acredito um pouquinho. E ao mesmo tempo me orgulho de não ser esquerdista exatamente porque o esquerdismo é compaixão e igualitarismo cristão, com toques maquiavélicos na versão marxista, com uma certa covardia bovina na versão social-democrata, mas sem charme espiritualista em qualquer corrente.
Se cristianismo é platonismo para o povo, esquerdismo é cristianismo para a cafonalha - gente que copia as idéias ruins de uma, no geral, boa metafísica do mesmo jeito com que se copia Versace de revista: imitando o mau corte e não o bom acabamento.
Posted by Rodrigo de Lemos at dezembro 26, 2005 12:36 PM
Comments
Pois é, Dom Rodrigo.
E no Brasil, ultimamente, ser desquerda é exercitar compaixão com o “cum” alheio...
Abraço e um calórico 2006!
(mauro: boa, muito boa. abraço, e ótimo fim de ano também.)
Posted by: mauro at dezembro 26, 2005 05:46 PM