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dezembro 22, 2005

o super-filósofo contra a equivocidade dos termos naturais

Desde a infância, um super-problema nunca deixou de perseguir o Super-Filósofo: como podiam as palavras ter tantos significados? Ele lia no dicionário o longo verbete "perna", e as letras se embaralhavam, espasmos lhe sacudiam os membros, e ele caía no chão da biblioteca, chorando em posição fetal, com as mãos na cabeça.

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Tony Ramos como Super-Filósofo para a série homônima da década de 70. Segundo o "Dicionário Globo de séries e novelas", o ator teve de se submeter a um ano e meio de laboratório em Leipzig até compreender a diferença entre ato e potência e aparentar QI acima de 80.

Mais tarde - seus músculos já fazendo volume na malha do uniforme - o Super-Filósofo tomou para si uma super-tarefa: acabar definitivamente com a equivocidade das palavras. Carrinhos de bebê que esperassem para ser atropelados; mocinhas que se virassem ao cair do Empire State; vilões caolhos em bases submarinas que fizessem quantos planos milionários quisessem para dominar o mundo; muito mais importante agora era saber como definir que o mundo a ser por eles dominado era o mundo-Mundo mesmo, e não o Mini-Mundo de Gramado. "A importância de precisar bem os termos de uma discussão", afirmava ele, com o dedinho levantado.

E saiu por aí executando seu super-plano. Por onde passava, deixava uma plaqueta com o nome de cada coisa: "carro", "porta", "parede". E se ouvisse na rua um gordinho ser chamado de "parede", lançava um super-argumento em laiser contra o leigo herético em filosofia da linguagem, deixando-o paralisado por dois dias e convencido de a univocidade ser absolutamente necessária para uma comunicação eficiente.

Como parte deste esforço heróico, o Super-Filósofo resolveu também reformar os uniformes dos colegas. Bordou uma lanterna na malha do Lanterna Verde, um "S" na do Super-Homem, um "WW" no bustiê da Mulher Maravilha. Todos aceitaram as inovações, menos a Mulher Maravilha - Linda Carter não gostava de semântica clássica.

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Mulher Maravilha combatendo Frank "Frege" Mancuzzo contra qualquer diferenciação rígida entre sentido e referência.

E então, quando praticamente tudo já tinha recebido um nome só para si, o Super-Filósofo deu de cara com um problema: como pendurar plaquinhas no que não se pode pendurar nada? Nomear assim a luz? O ar? E o amor? E o ciúme? E uma cólica menstrual? O Super-Filósofo parou, perplexo. Olhou em volta; plaquinhas penduradas em tudo, um trabalho de anos: pela primeira vez, uma lágrima brilhou no seu super-olho analítico. Resolveu então não abandonar a teoria, e sim provar a inexistência das coisas que a contradiziam. Concebeu para isso uma série de argumentos contra a realidade ontológica dos entes abstratos.

Afinal, o Super-Filósofo teve de inverter a máxima de Wittgenstein; para ele, aquilo de que não se pode falar nada simplesmente não existe.

Posted by Rodrigo de Lemos at dezembro 22, 2005 01:05 PM

Comments

Enquanto isso na Sala da Justiça... O julgamento do Super-filósofo avança a madrugada e o mais importante de todos os super-amigos, o Super-poeta, avidamente investe:

- Mas vc disse que aquilo do qual não se pode falar não possui realidade ontológica...

Ao que o Super-filósofo, com a boa educação de um Super-filósofo, objeta:

- É natural que o senhor sinta prazer nessas coisas. Para um libertino da sua espécie, contar coisas semelhantes, tendo em vista alguma intenção monstruosa desse gênero, deve ser mesmo um prazer, sobretudo em circunstâncias como essa e para um homem como eu... Isso deve excitá-lo!

- Bem, sendo assim,respondeu até meio espantado o Super-poeta -, sendo assim, então o senhor deve ser o maior dos cínicos. Pelo menos a matéria que o senhor tem para isso, dentro de si, é imensa. É capaz de imaginar muitas coisas... e também de realizá-las. Bem, mas já chega. Lamento sinceramente não poder conversar mais com o senhor... mas isso é um julgamento!

- Oú la vertu va-t-elle se nicher!!! Exclamava o Super-filósofo.

- Ora, cale-se Super-filósofo. Suas palavras unívocas não apagarão metade de seu crime...

- Meu crime? Qual crime? - replicou ele em um súbito acesso de cólera: o de ter matado um piolho imundo e maléfico, um vampiro que se alimentava do sangue dos filósofos. Mas essa morte devia, antes, obter indulgência para pelo menos quarenta pecados! E eu nem penso em tal... Por que agora vão todos gritar nos meus ouvidos: "Crime, isso é um crime!"? Agora que eu decidi enfrentar essa desonra perdoável, vejo com toda a clareza o absurdo da minha covarde determinação!

- Mas o que dizes? Tu derramaste o sangue dos objetos abstratos... insistia o super-poeta.

- E daí? Todos derramam - prosseguiu o super-filósofo, com veemência crescente - e não param de verter, sempre e sempre; o derramam no mundo como uma cascata, como champanhe, pelo qual se coroam no Capitólio e são depois proclamados benfeitores da linguagem. Examina as coisas um pouco mais de perto antes de as julgares. Eu simplesmente almejava conseguir uma situação independente, garantir os meus primeiros passos na filosofia da linguagem... depois levantaria vôo...
- É verdade que não procedi bem esteticamente falando! Se bem que, a preocupação estética é o primeiro sinal de fraqueza! Nunca senti isso mais claramente do que agora, e cada vez compreendo menos qual é o meu crime! Nunca estive mais forte e mais convencido do que agora!

Ao ouvir tudo isso, o Super-poeta místico não se conteve:
- Que deus te conserve! dizendo-o em tom lacrimoso.

- Será que minha idéia é mais estúpida que as outras idéias e teorias que se chocaram pela face da terra desde que o mundo existe? Basta encarar o caso da falha radical de referência... Basta encarar o caso sob um ponto de vista amplo, independente, despido de prejuízos, das influências cotidianas, e então essa idéia já não parecerá tão...singular. Ó contraditores e livres-pensadores de cinco reais, por que ficais a meio caminho? Por que é um crime? O que significa a palavra crime?


Beijos

(juliano: a palavra crime significa... uma apertada no mamilo. ;-)

e o crime do super-filósofo ele próprio confessa: "a preocupação estética é o primeiro sinal de fraqueza". ok, a frase não é bem um crime. mais uma gafe - como mulher de pochete, homem de tiara. uma frase que não cai mal em arquiteto de shopping, publicitário carreirista, pedreiro construtor e outros responsáveis pela feiúra do mundo.

sensibilidade de lata, um olho por demais racional.

epera: acabei de descobrir o que faz pertencerem a uma mesma categoria de seres humanos o super-filósofo e os...pedreiros!

:-P)

Posted by: juliano at dezembro 23, 2005 11:50 AM

Caro Rodrigo,
Eu gostei do texto. Estava me preparando para usar o aforismo do Wittgenstein no comentário, mas você estragou a minha idéia ao citá-lo no último parágrafo (rs)
Um abraço,
Marcos

(marcos: obrigado, marcos. e desculpe por bincar com aforismo; odeio estragar comentários witty de leitores idem. anyway, abraço.)

Posted by: Marcos Matamoros at janeiro 2, 2006 02:46 PM

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