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dezembro 28, 2005

1960's

Tenho andado muito sério, intrigado por um problema tão grave quanto a minha cara ao comer Danoninho de manhã cedo: afinal, gosto ou não gosto dos anos 60? Passei a semana inteira no Google images, tentando montar esse quebra-cabeças conceitual de primeira importância para o desenvolvimento de qualquer sistema ético possível na modernidade; a única fotografia que quase o resolveu, e a favor dos sixties, foi esta:

Porque os sixties foram a última década a conhecer o verdadeiro Charme - afinal, ele foi atropelado em 1964, com um Jaguar conversível dirigido por Jayne Mansfield enquanto ela se distraía do trânsito fazendo boquete no Jorginho Guinle. Por outro lado, praticamente todas as bobagens que não só contaminaram a nossa cultura, mas que agora já se tornaram ela própria - cultura pop, anti-classicismo, democracia boçal - ganharam direito de cidadania lá. Os fantásticos artistas dos anos 60 trocaram forma por discurso, destruíram a abstração (uma das melhores coisas da arte moderna) e mostraram em performances seus pintos de intelectuais cloróticos do mesmo jeito que mulher traída reclama do marido (no caso, o esteticismo) - sim, tudo o que Lygia Clark fez depois de 66 é reclamação chorosa contra uma corneação de Franz Weissman.

O mesmo na música - foi lá que a swinging London estabeleceu por anos a ditadura do proletariado que foi a do rock (trocada depois pela do reggae, do rap, do house, não muito melhores); o mesmo na moda - nunca me esqueço da reportagem de Paulo Francis sobre uma retrospectiva de moda no século XX no MoMA; depois de passar por uns Channel, por uns Dior, ele resmungava algo como: "E depois vieram os anos 60, que estabelceram a traparia democrática com que as pessoas se vestem agora". Agora, vendo um senhor de cabelo comprido, já meio careca, esperando o ônibus lá na rua de bermuda caqui e camiseta listrada de verde e vermelho, não posso deixar de amar um bom tanto essa frase de Francis.

E ao mesmo tempo eu até gosto da ditadura do rock - vejam! estou tremendo, não aceetro sa lrates do tacledo, de tanta indecisão. Lembro dos Kinks, dos Faces, de Jeff Beck no primeiro disco: como eles tinham charme! Seria mesmo um prazer passar um inverno num goulag, ouvindo "Where Have All the Good Times Gone?", sendo burocraticamente oprimido por Twiggy.

Também a moda nos anos 60 ainda existia; existia Saint-Laurent:

O que houve de errado nos sixties, então? Pergunta retórica é brega; eu mesmo já disse: um menino mod mexeu na direção enquanto Jayne Mansfield dava oral pleasure ao Jorginho Guinle; o Charme vinha de bicicleta, assobiando "Green Onions", e foi arremessado a uma distância de mais de 100 metros do local da colisão; horas depois, acharam só um pé de seu sapato bicolor e um óculos modelo Aviador ensangüentado.

E é com esses restos de Charme que as pessoas viveram nos anos 70, 80; em 72 o Roxy Music quase reconstituiu o corpo inteiro na letra na letra de "Virginia Plain" ("You're so sheer, you're so chic, teenage rebel of the week"; "Baby Jane's in Acapulco; we're flying down to Rio"; os "Midnight blue cassino floors"); nos anos 80, se alguém conseguiu eu não vi.

Já nos 2000, ele veio se recuperar na casa de uns amigos - mas o óculos modelo Aviador é meu.

Posted by Rodrigo de Lemos at dezembro 28, 2005 02:45 PM

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