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agosto 06, 2005
o povo que vive sob a minha pia-máter
Sou facilmente divertível. Sou, na verdade, auto-divertível. Tenho um pequeno estoque de imagens na minha cabeça que me salvam de qualquer tarde de domingo.
Na verdade, não são bem imagens, são personagens que invento. Ou melhor, tipos. É isso, são tipos que me vêm à cabeça quando uma fila, um ônibus ou uma sala-de-espera põem à prova o meu amor à vida. E depois eu não entendo por que as pessoas ao meu lado acham que estou rindo delas, vejam só que mistério.
Adoro carreiristas, por exemplo. Mulheres carreiristas. São sempre loiras, têm peitos enormes, estão excessivamente maquiadas e invariavelmente dispostas a fazer tudo para estrelar um daqueles shows cafonas de Las Vegas. Picotam os vestidos umas das outras no camarim. Quebram os saltos das sandálias para a colega cair na escada. E colocam soda cáustica na tintura de cabelo da dançarina principal para deixá-la careca um dia antes do espetáculo. Enfim, algumas lições de baranguice que se pode tirar de filmes educativos como "Showgirls". Até já escrevi um post sobre ele, explorando as semelhanças entre as vagabas do filme e alguns blogueiros desesperados por publicidade.
Velhas lascivas também são ótimas. Velhas, não: senhoras de 45, 50 anos. Vejo elas em boates enfumaçadas, vestidas com botas e biquinis de couro, fazendo gestos de felinos sensuais com as mãos meio crispadas enquanto dançam "Strangelove" dentro de jaulas. Quando elas começam a tirar a roupa eu quase sempre troco de cena; se de fato existe uma linha tênue entre a bizarrice e o mal-gosto completo, não sou eu quem vai até lá comprovar. Mas ainda contrato umas dessas para dançar no meu próximos aniversário, junto com uma trupe de anões sado-masoquistas, como garçons.
Mas secretárias são melhores. Claro, não quaisquer secretárias: secretárias carentes emocionalmente. Daquelas que se deixam levar a motéis baratos pelo chefe. No geral, logo na primeira hora elas se embebedam com Espumante Peterlongo; ficam só de meia-calça e lingerie em cima da cama, e contraem-se de forma insinuante ao som de "Carelesse Whisper", do Wham, pondo em prática passinhos 1-pra-lá-1-pra-cá aprendidos com afinco durante meses em cursos de strip-tease. Depois, quando os dois estão de cabelo molhado, saindo do motel, o chefe diz nunca ter conhecido uma pessoa "tão especial" (desde que dia do mês passado ele não especifica), e que vai deixar a esposa por ela. O que gera anos e anos de enrolação para a pobre secretária. Mas aí a história fica trágica, e sou forçado a trocar de cena também, porque não gosto de ver ninguém sofrer, que bonzinho sou eu.
No fim, o que eu acho realmente engraçado nessa história é a carência emocional da secretária. Ou a carência emocional da mulher, em geral. Mulheres carentes e assemelhados são sempre, sempre muito engraçados - os olhinhos revirados, pensando na pessoa amada (ou na falta de), enquanto abraçam ursinhos de camelô que têm um "I love you" bordado na barriga. São engraçados e meio bobinhos também. Só é obcecado pelo amor quem nunca leu um livro decente na vida.
E esse é o povo que vive sob a minha pia-máter. Tem mais; tem mais; muito mais. Mas escolhi só as mulheres para agradar uma eventual leitora feminista. Espero que goste do chá, querida.
Posted by Rodrigo de Lemos at agosto 6, 2005 11:29 AM
Comments
Como você é cruel, Rodrigo! Tava pesquisando no google sobre carência emocional. Tentando achar uma resposta adequada: se foi papai ou mamãe ou o pintinho cor de rosa que morreu quando eu tinha 5 anos...
Algo pra odiar...rs
Achei você. Ô pessoa fácil de odiar...rs rs rs
Mas devo estar muito carente mesmo, porque gostei. Gosto de comédias crueis sobre problemas mais cruéis ainda.
Depois de ler sobre o povo que vive sobre sua pia-máter (me identifiquei com a secretária), não tenho mais dúvida: além de não amada, carente e solitária, sou patética também.
É tudo o que precisava saber. Já escuto você: 'Filha, isso é patético e comum, dá mais do que pereba em perna de menino'.
Ainda bem que isso diverte alguém.
Inclusive a mim.
Grande abraço.
Adriana (me convida pro seu aniversário...rs)
Posted by: adriana at julho 26, 2006 01:06 PM