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agosto 10, 2005

meu momento hugh selwyn mauberly

É frustrante escrever poesia. Basicamente porque "anything, anything can go." Os Fields Brothers dizem que a grande contribuição deles para a literatura foi a de terem deixado a poesia mais difícil de escrever. Então não houve grande contribuição nenhuma. A poesia é uma arte rolando ladeira abaixo, e é tão triste saber que depois da queda nem os joelhos da coitada vão prestar.

(Desculpem; desculpem; sempre acordo apocalíptico quando janto muito tarde).


Mas é que nunca foi tão fácil escrever poesia como agora. Escreva n'importe quoi e tenha certeza de que um crítico pós-moderno qualquer vai vir com algum conceito esdrúxulo, inspirado, sei eu, em leis da termodinâmica, para dizer que o seu poema é bom. Aliás, bom não; interessante, epistemologicamente interessante. A nossa época acha qualquer tipo de julgamento tão cruel que mesmo em arte as pessoas só usam palavras assépticas.

É por isso que é tão bom saber que um poeta contemporâneo escreve assim:

MÁQUINAS

Se - máquinas precisas
que somos de morrer -
nossa função implica
memória ininterrupta,

por que, afinal, possuis
(lubrificadamente
contrátil entre as pernas)
o teu lagar de amnésia?

(Mr. Nelson Ascher)

Posted by Rodrigo de Lemos at agosto 10, 2005 11:28 AM

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