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agosto 12, 2005

godardzinhos must starve part II

Tenho a impressão de que godardzinhos julgam mérito intelectual não por o que a criatura faz, mas por o que ela não faz. Por exemplo, alguém fala mal de reality show. Não escuta pop lixoso. Não gosta de cinema em shopping. E principalmente não demonstra o menor vestígio de um sorriso ou de humor wildeano ao pensar no ridículo do mundo. Este é o intelectual perfeito para o povo da eterna angústia existencial; o intelectual por eliminação de características. Claro, se alguém leu "O estrangeiro" ou "A Paixão Segundo G.H.", e não cantarola os grandes sucessos do Só Preto sem Preconceito, já pode dar uma contribuição duradoura ao pensamento ocidental e ir às mesmas festas que a gente.

Mas é principalmente a falta de humor que fascina esse povo. Digo "fascina" porque nem sempre "caracteriza" - é difícil manter o rosto em perpétua careta de Jeanne Moreau. Mas o ideal está ali, o uso excessivo de sombra preta e pose blasé. E me pergunto por que "não rir" é igual a "pensar" para eles. Well, não é preciso um longo ensaio de psicologia intutiva: o godardzinho é o pessimista chic - uma espécie de radical chic desiludido. Para ele o mundo é ruim. Até aí, tudo bem; eu mesmo não o coloco entre as minhas melhores relações. Acontece que ele não é nem esteta, nem religioso; ele não acredita num "além-mundo" melhor. E como viu documentários da Globo News e descobriu que utopias de esquerda não combinam com All-Star de cano longo; e como para ele "pensar" significa "ver as coisas ruins, mesmo quando elas não são tanto", a conclusão a que o godardzinho chega é "ah, aquela criança passando fome; ah, aquela mulher abandonada; ah, o meu óculos de aro grosso arranhou; o mundo é horrível; por isso todo pensador profundo tem que ser um chato deprimido". E troca imediatamente o cd das Destiny's Child por um saxofonista de bebop drogado; e faz uma carinha angustiada de "O ascensor para o cadafalso".

Mas antes isso fosse só um monólogo interior. Porque uma vez godardzinho, o godardzinho quer alardear para mundo a sua descoberta de que as pessoas são más, não gostam de periquitos. E a internet vira então a Via Borghese do pessimismo chic. As descrições do orkut; sempre me divirto vendo os perfis de conhecidos leitores de Camus. Já tive o prazer de topar com o "No, I'm not Prince Hamlet", do Eliot, inteirinho, e a sério. O que foi muito gentil da parte da criatura; pela camiseta do Blur e a barba sem bigode, bem que eu poderia confundir. E o MSN então. Gente que na apresentação põe frases profundas em francês sempre me faz espumar chá-com-leite pelo nariz de manhã cedo. Coisas do tipo "La mort transforme la vie en destin", "Le monde est la chute du monde" ou o lema dos pseudos, "Je est un autre" (se é mesmo que eu sou você e você sou eu, dahling, então vamos compartilhar - o seu - cartão de crédito?). E veja bem, o problema não são nem essas frases; de algumas até que eu gosto. Mas é que fica difícil ler a sério "Hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère" na mesma janela que contém uma foto da menina indie tocando air guitar e um Smile de óculos escuro e sorrindo.


Tudo isso para ostentar pessimismo. E logo o pessimismo, a menos nobre das filosofias. Godardzinhos são meninas funkeiras que não conhecem grifes e saem por aí ostentando no top cor de ovo uma elegantérrima etiqueta da C&A, para mostrar que elas "também tão podendo". Ou piores; meninas funkeiras não filmam uma maçaneta durante 15 minutos e dizem que estão fazendo arte crítica dos seus próprios meios.


ps1: Atenção, isto não é uma cruzada anti-godardzinhos. Trata-se no máximo de uma caça verbal a uma espécie bizarra - um pouco por sadismo, outro pouco por diversão. Tem quem caçe capivaras; tem quem caçe marrecões; eu caço mentalmente godardzinhos. À noite, depois da última sessão de "Irreversível" (e sempre caço mais godardzinhos depois da útlima sessão de "Irreversível") trago uns 15 amarrados pelos pés, já meio depenados durante a viagem, e jogo na sala de estar para cozinheira preparar o jantar. Só peço para ela guardar os casacos da Adidas e os All-Stars cano longo para a sopa; deve-se aproveitar tudo de certas aves em tempos de crise.

ps2: Godardzinhos não são a mesma coisa que admiradores de Godard. Godardzinhos são imitadores de Godard. E quando velho, broxa e reclamão.

ps3: Mas que godardzinhos must starve, ah, isso eles devem.

Posted by Rodrigo de Lemos at agosto 12, 2005 11:25 AM

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