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agosto 31, 2005

blochevismo sexual

Como eu sou de esquerda. Porque, veja bem, meus preconceitos com relação às classes populares são invariavelmente postivos. Sobretudo em questões sexuais. Existe alguma coisa de atlético, de selvagemente atlético, em meninos fazendo acrobacias para mim no semáforo, ou vendendo côco na beira da praia em bermudas cafonas.

Talvez isso aconteça por eles viverem numa cultura, digamos, mais física. Engraxar sapatos; vender frutas; empacotar compras no supermercado; tudo isso trabalha o abdômen, desenvolve o tríceps. No mais, eles estão livres dos passatempos da elite. Porque, como tudo o mundo sabe, os passatempos da elite são geralmente uma maneira sofisticada de sublimar impulsos sexuais. Quanto mais um criatura vibra ao ler Henry James, mais chances ela tem de desenvolver uma impotência antes dos 40. É simples: um gozo tende a anular o outro - quem sabe, por o primeiro ser melhor. Anyway, o fato é que a cultura consiste exatamente em sublimar o desejo do corpo para formas mais sutis de desejo. É só pensar: menininhos ingleses, cloróticos e civilizadinhos, fascinados por mitologia germânica, são muito, mas muito menos viris do que atendentes de farmácia, fascinados pela última calçinha que lhes excitou o nervo óptico. Daí que as classes populares estão mais próximas ao estado de natureza, claro que sim.

E é por isso que gente como Oscar Wilde procurou a vida inteira garotinhos no porto. Ou pelo menos até freqüentar a alta-roda, freqüentando Alfred Douglas. Se bem que, sob o ponto de vista "estado de natureza", pas de changement. Wilde, o homem polido, constante, e Alfred Douglas, uma espécie de Judy Garland grávida, querendo caixas de tâmaras e de michês tunisianos às 4 da manhã em plena Londres de 1894, eram o perfeito contraste entre a constância e a polidez da cultura e a exigência fazendo-beiçinho-e-batendo-o-pé-no-chão dos desejos fisiológicos. "O que eu queria, Oscar, era uma caixa de frutas e de corpos humanos exóticos - uma só, e você não faz nada quanto a isso, nada!"; "Mas são quatro da manhã, Bosie dear, quatro da manhã..." Pensando bem, mesmo as classes superiores se aproximam do estado de natureza ao se entregarem a desejos frívolos e incontrolados - ou seja, à bichice histérica. Com a desvantagem de não ficarem necessariamente mais viris com isso; é só lembrar de Alfred Douglas.

Posted by Rodrigo de Lemos at agosto 31, 2005 11:20 AM

Comments

Seu design é muito bonito, parabéns.
Estou pesquisando sobre NILCON. Se souber de alguma coisa, por favor me envie.
Vou botar no Favoritos e uma hora leio com calma.
Gosto de Oscar Wilde e adoro "Eu resisto a tudo, menos às tentações."
Atenciosamente,
Tancredo

Posted by: Tancredo Neto at abril 28, 2007 03:57 AM

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