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julho 20, 2005
por que livros?
Primeiro: porque cidades são feias. Cidades são aquele tipo de coisa que tem um conceito maravilhoso, mas uma materialização frustrante. Para identificá-las é simples: um amontoado de prédios cinza, anúncios de mau-gosto e gente que não vale nada. Até Paris, até Ankara, até Santiago de Compostela são assim. Porque na frente da Sainte-Chapelle tem sempre um porteiro tunisiano discutindo, sei lá, partida do Paris Saint-Germain com o chefe do almoxarifado, enquanto você tenta ver os vitrais. E é essa promiscuidade mental, essa obrigação de estar sempre mal acompanhado, que estraga qualquer coisa interessante que você esteja fazendo em qualquer cidade grande do mundo, de Porto Alegre a Paris.
Mas não é só em cidades que pessoas são viscosas: ao natural mesmo elas não são muito melhores (menos eu e a minha mãe, claro). E o problema não é só aquele cheiro peculiar que sociedades coletivistas ou quartos fechados com muita gente exalam, não. Nunca me esqueço de uma cena de "A la Recherche du temps perdu" em que Saniette, o filósofo paspalho e courinho dos Verdurin, é humilhado num jantar na casa deles. Proust diz, então, que Saniette se retraiu, baixou a cabeça e olhou para os convivas com o olhar resignado de quem sabe o quão pouco valem as afeições humanas (não lembro direito as palavras; devo ter anotado em algum lugar. Mas é mais fácil achar esta cena nos sete volumes de "A la Recherche" do que anotações na minha gaveta). E a vida em sociedade não é muito mais que isso: hordas de Saniettes sendo escorraçados de salas-de-jantar, lutando cômicamente para serem Verdurins uns dos outros. Com a diferença de não entenderem que a vida pode ser menos boba do que isso.
Tanto é assim que a boa literatura dos últimos 200 anos tem sido uma constante demonstração do nada que são as relações entre os homens. Madame Bovary cometendo suicídio por amantes que na verdade eram a ela indiferentes. Brás Cubas filosofando amargamente no post-mortem. E a própria "A la Recherche..." não é mais que a história de um homem tentando achar satisfação no amor e na mundanidade e não encontrando em lugar algum a não ser no seu próprio passado. O que os realistas-ou-quase fizeram de bom foi ter mostrado com (sórdidos) detalhes a feiúra da vida deixada por si. Por isso mesmo, o realismo puro é incompleto; depois de escrever "Madame Boavary", é preciso apontar um ideal - o que faz de "Salammbô", por exemplo, um grande romance.
(Porque mesmo fazendo concessões, continuo achando o realismo dull. Não são os personagens que devem parecer pessoas; são as pessoas que deviam parecer personagens.)
Mas a melhor razão para os livros é as roupas serem muito caras. Sério. Se eu pudesse, seria um pequeno Balzac da blogosfera, recebendo 50 reais por cada acesso no meu site e usando o dinheiro para pagar dívidas na Casa das Sedas. Porque, afinal, a beleza é uma coisa-em-si que pode se manifestar tanto num blaser de veludo quanto num poema do Paul Valéry ou no nariz de um menino grego chamado Carolos. E foi graças a estes poemas do Paul Valéry que ontem à noite gastei só 20 reais com "Charmes" e não me endividei em mais de 600 com o blaser que eu queria. Viva a literatura: troquei um pelo outro, escapei de uma boa chance de ter meu cartão de crédito cancelado e ainda voltei para casa satisfeito. Se tivesse achado o menino Carolos numa vitrine por 14,90, a satisfação teria sido completa.
E podem, podem me chamar de alienado. Mas boa parte das pessoas que acompanham em detalhe eventos irrelevantes como vida sexual de atrizes de novela ou crises políticas em países sul-americanos também são alienadas quanto à queda do Império Romano do Ocidente, e ninguém fala nada. Nem eu. Só acho que preferir Gibbon ao casal do Jornal Nacional pode não ser muito comunitário e engajado, mas é mais bonito. Questão de delicadeza gástrica.
Posted by Rodrigo de Lemos at julho 20, 2005 11:47 AM