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julho 29, 2005
da minha relação estritamente profissional com a vida
Eu gosto da Vida. Acho que é uma moça prendada, tem boa dentição, e todo dia a gente se cumprimenta, quando eu levanto e ela vem limpar meu quarto. Mas a Vida tem um problema: às vezes ela cresce demais. Em longitude, em latitude; e minha mãe tem de manter a geladeira sempre trancada e as plataformas dela sempre escondidas, para que a outra não queira parecer ainda maior. Avisaram na carta de recomendação, mas ela não deu bola quando assinou o contrato.
E quanto maior a Vida fica, mais ares de patroa ela assume. Escolhe horários para tudo. Ler com ela em casa, por exemplo, é impossível. É começar uma página, que a Vida bate na porta do meu quarto; quer passar cera no chão ou diz que vai limpar os vidros. Escrever, então. Eu ainda na primeira frase, e ela vem tirar pó do teclado. Resolve passar álcool no monitor. E começa a me contar histórias de irmãos assaltantes e vizinhos lobisomens enquanto concebo metáforas geniais relacionando uma receita de omelete com a dissolução do império carolíngeo.
É por isso que recuso polidamente quando me desejam uma Vida "cheia de amor". Questão de maquiavelismo: é o temor, não o amor, que garante a fidelidade - principalmente nas criadas. Além disso, é bom manter com a Vida uma relação estritamente profissional; "amor pela Vida", ou a "Vida com amor" dá muita confiança, faz ela se sentir da família. A Vida é uma empregadinha atrevida e meio incompetente, a quem a gente deve mostrar o seu devido lugar quando ela começa a escutar rádio Caiçara muito alto. E não, não é por esnobismo, não. É que, de outro jeito, ela não nos deixa escrever.
Posted by Rodrigo de Lemos at julho 29, 2005 11:43 AM