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junho 24, 2005

de trop

2 da tarde

Verdade: nem todas as línguas combinam. Autores de musicais deviam se dar conta disso, y compris Irving Berlin. Se o tivessem iluminado com este conselho, ele jamais teria misturado inglês e italiano em "Picolino". Jamais teria feito versos tão banais quanto "Take your glass of vino", rimando com "bambino" (trocando vino por cachaça e bambino por tchutchuco, serve também para um musical com Fred Astaire sapateando de fraque em baile funk). E, o mais importante, pouparia a Ginger Rogers de cantar este monstrinho bicéfalo - metade Rita Pavone, metade Andrew Sisters.

(Mas não só Irving Berlin; o próprio Bobo Dylan, em "Romance in Durango", não fez muito melhor).

Outras que não fecham: espanhol com inglês. Pode qualquer um, o Frank Sinatra, o David Bowie, misturar espanhol com inglês: fica parecendo motorista de táxi chicano pedindo trocado, ou, não menos agradável, o Ricky Martin animando Copa do Mundo.


Já português e italiano ficam perfeitos - e um "adesso" bem colocado salva o ritmo de qualquer frase, não me entendem mal, s.v.p. Mas "per favore" não cola; caipirice. O mesmo para "meraviglia", ugh.

Francês e inglês vão igualmente muito bem. O francês é uma moça enjoadinha, às vezes doce demais, e precisa de um marinheiro inglês rude, loiro, peludo e que acabe em consoante. Além disso, na década de 50, uma das expressões mais legais que americanos usavam era "de trop". Nos filmes era assim: duas amigas conversando; chega o cara em que uma delas está interessada; a outra, para não atrapalhar, diz: "Well, I think I am what the french call 'de trop'.", e sai. Vi isto uma vez em "All About Eve" e outra em "An American in Paris". Infelizmente, nos últimos 50 anos, ninguém mais fala assim, pelo jeito.


Bem, mas tudo isso é para recomendar "Top Hat" - em português, ham, "O Picolino". Ok, esqueça o título. Primeiro, tem Fred Astaire e Ginger Rogers dançando. Segundo, uma Veneza de cartolina que é uma graça. E at last but not at least, um "entre nous" que salva um diálogo assim assim. E os figurinos. Ah, e as músicas do Irving Berlin - tirando "Picolino", claro.


4 da tarde

Acabo de rever "Top Hat". E retiro o que disse sobre "Picolino".

Posted by Rodrigo de Lemos at junho 24, 2005 12:30 PM

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