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junho 15, 2005

arma virumque cano (ou a verruguinha da eneida)

Já tive uma professora chamada Eneida. Era bonita a Eneida, muito gentil e querida, só tinha uma verruga que ela penteava antes da aula - tomara que ela não me leia, mas é verdade, juro que sim.


Para mim, foi uma decepção. Imaginar que a Eneida era daquele jeito. Desde aquele ano, não pude mais ler que a Dido escondia as lágrimas no Hades sem ver a minha professora chorando de perna aberta no banheiro feminino. E era frustrante pensar que o Hades e o banheiro da minha escola não eram tão diferentes assim, a começar pelo cheiro.


Ainda mais que a Eneida deu a maior aula de arte clássica que já tive. Só entendi o que era o clássico quando li a morte da Dido. Todas as paixões violentas estão ali; os personagens altivos, com noção de honra e dever; as ações mais graves, mais desesperadas, e as conseqüências mais terríveis; mas tudo dito de uma forma tão discreta, tão contida, tão digna. Só se fica sabendo que a Dido, quando o Enéas vai abandona-la em Cartago, força a espada dele contra o corpo, e quando as criadas chegam, já a encontram morta. "Eis" (e nasce uma sinal peludo no nariz do blogueiro), eis um dos bons motivos para admirar a Eneida, apesar da verruga: é fácil fazer um dramalhão dum suicídio amoroso; é igualmente fácil manter a classe, e fazer uma cena gélida. Mas para conciliar as duas, il faut de l'art. Isso porque o clássico só é clássico quando o artista cria se desculpando pelo kitsch que é a emoção, mas não abre mão dela. E esconde a verruga cabeluda - o que a Eneida fez uns dois anos depois, passando no bisturi todas aquelas citações soporíferas de tribos minúsculas e desconhecidas.


Fiquei sabendo que com os retalhos da cirurgia fizeram os Lusíadas, a Françiada, as epopéias do Voltaire. Eu duvido; mas como foi a própria Eneida quem me contou...

Posted by Rodrigo de Lemos at junho 15, 2005 12:30 PM

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