« sobre como broxar lendo proust | Main | o rosto e a voz por trás do politicamente correto »
maio 15, 2005
contra a naturalidade
Tia Luci: -Vem, vem cá, dá um beijo na titia, vem.
Fernanda: -Eu não, tu tem cheiro ruim na boca!
Sempre achei que a Fernanda, minha prima de oito anos, deve ser um exemplo de moral pra essas pessoas que defendem incondicionalmente a espontaneidade. São criaturas que falam sem parar no "natural", e (pior) que estão sempre dispostas a juntar a palavra "natural" à pergunta "Qual o problema..." (pergunta, aliás, típica de gente meio burrinha). "Qual o problema em ver a tua mãe mijando de porta aberta? Não é natural? Não foi dali que tu saiu?"; quando a resposta é bem simples: foi dali que eu saí, o que não quer dizer que eu seja obrigado a ver o tempo todo. E o mesmo vale para "Qual o problema em cheirar feito um bode? Fica sete dias sem tomar banho; este é o teu cheiro natural. Então, que que tem?" ou "Qual o problema em fazer campeonato de arroto? Uma coisa tão natural; coisa do organismo!". E notem as caras, o jeito de torcer a boca pro lado, afetando todo o desprezo que gente bem-pensante deve ter pelo arcaísmo de manter os maus odores dos outros a uma distância segura. Não duvido que, entre um arroto e outro (daqueles bem altos, porque eles são tão naturais, tão espontâneos...), falem verdades desagradáveis pra tias baforentas ou puxem as calças dos convidados de seus pais, exatamente como a Fernanda faz nos almoços de família. Tão espontânea, tão natural aquela menina.
Mas como esta gente está errada. Quem vale alguma coisa só vale porque venceu a própria natureza, essa tendência que humanos compartilham com macacos de comer, dormir, trepar e coçar a pança embaixo duma árvore. O cara que é espontâneo demais, natural demais, e que não corrige esse mau hábito, acaba se vestindo mal e metendo o dedo no nariz enquanto dirige (reparem: é quase um reflexo não condicionado em gente mal-vestida). Ou ficando gordo, careca e bebedor de cerveja - o que equivale, mais ou menos, a um macaco coçando a pança embaixo duma árvore. Senão pior: macacos geralmente têm silhuetas mais esguias.
É por isso que eu desconfio de artistas "naturais" ou "espontâneos". Gente que cria com o coração, com o inconsciente, com "aquela coisa que vem, assim, e que não dá pra segurar". Geralmente, o que eles fazem é amorfo, e amorfo quer dizer disforme, e disforme quer dizer sem forma, e o que é sem forma é fora de forma. É isso; o que me irrita neste tipo de arte são os pneuzinhos a mais. Quando eu abro um livro de poesia confessional, por exemplo, o que vejo é um velho gordo e preguiçoso, pingando Fanta Uva no seu abrigo de tec-tel. Já a boa poesia é atlética; beauty is a difficult thing, e só se chega lá com muito exercício (ou seja, muito artifício). A boa arte é sempre uma violência contra a natureza, quase tão grande como passar duas horas numa academia - ou, no caso da Fernanda, refrear o impulso de atirar salada de maionese no cabelo da avó. O que faz com que a grand art seja máscula, tenha pernas rijas e bíceps avantajado:
