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abril 22, 2005

pequeno tratado de urbanismo canalha

todo mundo fala que o urbanismo do le corbusier e do lúcio costa é ruim. dizem que é tudo muito bonito, muito organizado, mas também muito frio, inumano, e que as pessoas não se sentem à vontade pra "se apropriar da cidade" (e todos enchem os olhos d'água, e ouve-se ao fundo o tema de "dr. jivago" ).

como se isso não fosse qualidade. pessoas "se apropriando" do espaço público significa pessoas saindo pra rua mal-vestidas, falando mal uns dos outros e jogando papel no chão. ou seja, fazendo coisas que você, leitor, diz na academia achar bonito sob o nome de diversidade, mas quer distância quando cruza a soleira da porta, não é mesmo?

para mim, a cidade ideal é o rêve parisien do baudelaire; uma coisa vazia, silenciosa, meio mineral. e com telentregas pra tudo: pizza, hospital, açougue, banheiro público. só assim acaba-se com os abusos destes velhos aposentados que se acham no direito de usar chinelo com meia pra "ir rapidinho ali na padaria", ou dessas donas-de-casa que correm pra rua de pantufa e tudo só porque o marido teve um derrame cerebral. uma absurda falta de civilidade, não acham?

fiz uns planos com sugestões urbanísticas para algumas das maiores cidades brasileiras. claro, de tão geniais, eles foram imitados por muita gente, mas agora, leitor, tenha certeza de estar vendo os originais:


a1 são paulo.jpg


<em>mais de quatro ruas largas em são paulo pra quê? passada essa quantidade já é o caos, uma colcha de retalhos que na itália eles insistem chamar de cidade. gente estranha.
e além de belíssimo, este modelo é prático: se você tiver dor de barriga e quiser ir até a zona de farmácias que vende supositórios azuis (ZFVSA, indicada no mapa pela seta), é só deixar seu carro na vertical mais próxima (V1), pular alguns muros de quintais e, pronto, você chega ao seu querido supositório. maravilha, não?
mas há ainda outras mudanças que operarão pelo progresso da cidade. o tietê, por exemplo. seu leito curvo combina mal com os ângulos retos que eu projetei. daí, pensei que ele poderia ser represado e transformado em lago. em lago quadrado, é claro, e localizdo na zona azul da parte superior do mapa. são paulo teria o maior esgot..lago quadrado a céu aberto do mundo!

a1 rio.jpg


minha sugestão de urbanismo para o rio. o plano traria modificações muito benéficas para a cidade. por exemplo, a aglomeração de todas as favelas na zona periférica amarela. ah, a área é muito pequena para a quantidade de pobres? bom, como todo o urbanismo "mexe com o contexto social", e como a gente deve sempre pensar em soluções "a este nível", sugiro a aplicação dos planos canibalescos do swift para a redução do número de pobres na irlanda. a carne mais barata no mercado não é a carne negra? foi a elza soares quem falou; eu não disse nada.

a1 porto alegre.jpg



por fim, minha sugestão de urbanismo para porto alegre. este plano foi baseado nos princípios do blau reiter: desenho a mão livre; formas expressando diretamente a emoção do artista; inspiração na arte de loucos, crianças más, mulheres que usam ombreira e outros excluídos.
tá certo, pode até ter ficado uma merda. mas é inegavelmente mais bonito que o atual. e, além disso, o que é a beleza perto da "inspiração genuína" de um mestre?
não muito, não é, meu filisteu leitor?, não muito.


Posted by Rodrigo de Lemos at abril 22, 2005 02:42 PM

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