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abril 12, 2005
a mandioca e a aristocracia
não sei se minhas convicções monarquistas se enrijecem ou se diluem a cada vez que eu vejo "a rainha margot". se o meu coração elitista bate mais acelerado quando a catarina de médicis fala com sotaque itailiano "que commence le carnage", ao mesmo tempo me invade a certeza de que, mesmo com a monarquia restaurada, a gente não teria mais aquela maneira de conversar, aqueles figurinos, aqueles cenários - e, o que é pior, a gente tampouco teria a isabelle adjani enlouquecida, com uma máscara de cetim, catando macho na rua como rainha ninfomaníaca. a realidade tem este cacoete muito descortês de não imitar o cinema, o que é a causa de todos nossos males.
além disso, no brasil uma monarquia - sim, uma monarquia mesmo, com nobreza completa e corte - nunca daria certo. dá pra temer um nobre com o título de duque de itaparica? uma criatura dessas só pode ser um senhor todo maquiado, rebolando, de culote, peruca de rolinhos e frutas na cabeça. e o barão de piraçicaba, então? com certeza, um velho cachaceiro, que fabrica pinga no quintal do chateau, bebe mais da metade da produção e chega em casa batendo na mulher e nas filhas. não é por nada que o conde de porto alegre era republicano e que o barão de itararé era humorista.
no fundo, nenhum sistema político no brasil tem chance de dar certo por causa do nome das cidades. tudo culpa dos índios: quem é que vai ter noção da ordem pública em lugares que se chamam morungava ou xanxerê? é verdade que nós, brancos, acabamos com a sociedade deles, mas eles foram muito mais eficientes em sabotar a nossa. imagino uma roda de índios fumando maconha, sufocando de rir e inventando palavras esdrúxulas como "mandioca" ou "pindamonhangaba" para enganar os jesuítas, dizendo pra eles que aquilo era tupi. e eles caindo nessa. pelo que me disse um especialista em ph*&5$@ na universidade, o verdadeiro tupi era igualzinho ao grego, na verdade até um pouco mais bonito. mas este tupi, assim como muito do que foi bonito no passado - y compris a monarquia -, se perdeu por causa de brincadeira de emaconhados. dias depois do desembarque dos portugueses, os índios ficaram com preguiça de ensinar a verdadeira língua aos colonizadores e falaram só no tupi evil-twin que eles tinham inventado. pronto. a nossa bagunça política estava determinada pra sempre, desde a independência - no riacho do ipiranga - até a queda da monarquia, além de 64 e etc. malditos guararapes!
(ok, ok, chateauroux e rhône também não são exemplos de elegância linguística. será que isto acalma vossos brios nacionalistas?)
Posted by Rodrigo de Lemos at abril 12, 2005 03:36 PM